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Momento Mellowick, Ato 1 — Uma Expedição Explosiva!

14 - Primeiro Choque

14 - Primeiro Choque

Jun 20, 2025

Batendo a poeira de seu casaco, Martin dava os seus últimos passos pela prancha, utilizando tudo de si para não escorregar nos restos de carne, miscelâneas e frutas esmagados nas tábuas secas. Com determinação, o rapaz pôs os pés pela primeira vez no convés, virando o pescoço em uma espiada generosa e mantendo o seu olhar de mal-encarado o tempo todo.

No início, isto era apenas para manter a personagem durona, mas, alguns segundos depois, aquele olhar de estranhamento e desconfiança tornou-se genuíno por completo.

Ah, o Piston Pucker! Neste dia ensolarado, horas antes do içar de âncoras da expedição, não era de se estranhar que os passageiros estivessem dispostos e bem animados. E animados eles estavam. Martin enxergava, de uma vez só, um mar de lutadores, mercenários, sacerdotes e não se sabe o que mais. Eles gritavam, anunciavam, brigavam e festejavam — tudo mais ou menos ao mesmo tempo —, e seus rostos passavam energias distintas: desde assassinos vis e saqueadores até aqueles cuja feição lembrava paladinos, cavaleiros e afins. Todos estavam vestindo e carregando coisas muito distintas, e muitas daquelas pessoas obviamente eram estrangeiras do além-mar. Caso questionados, é lógico que a maioria dos estrangeiros não manifestaram quaisquer reações positivas com a ideia de a expedição começar em Antunes, mas devido às condições geográficas eles não tiveram escolha — e foram obrigados a embarcar numa viagem BEM longa, mesmo antes da viagem de verdade começar. Goa está em um arquipélago vizinho de Saborin, e não seria uma boa ideia içar âncoras em outro lugar que não fosse o continente.

Além do mais, Antunes fez a droga do barco. Então que não reclamem.

Martin, por outro lado, não fez nada. Não só não fez nada, como dispensou perguntas a respeito, encostando-se em um canto sombreado do convés, e por lá ficou sentado.

Cerca de uma hora após sua embarcação, um marinheiro anunciava ao público:

— Nosso último passageiro já embarcou!

Houve sinais, e berros, e avisos e mais sinais. Mas Martin cochilava. Depois de alguns minutos de caos e expectativa, as engrenagens do barco começaram a pedalar; suas turbinas palpitavam, o combustível queimava e o Piston Pucker içou âncoras ao dar partida.

Ele afastava-se da costa, lentamente, abafando o som das despedidas.

Piston Pucker desapareceu no horizonte azul. E por muitas horas, a viagem foi calma.

Calma até que Martin se viu — repentinamente — perturbado.

Eram três homens à sua frente. O rapaz não chegou a notar quando se aproximaram; não tinha ouvido eles dizerem nada; e muito menos tinha pinta de quem queria conversa. Eles mantiveram-se ali, calados, por um determinado tempo, mas, agora, Martin estava certo de que eles não iriam embora tão cedo. O primeiro deles, no centro, tinha sobrancelhas grossas, cabelo encaracolado, óculos escuros e uma barbicha falha: usando uma regata e intimidantes coturnos de couro, com um coldre na cintura. E seus colegas eram dois: um homem atlético, de cabelos louros, regata vermelha e costeletas — e outro com cabelos cinzentos, um rústico aparelho nos dentes e uma boina preta. Todos pareciam mal-humorados, enfrentavam o sol escaldante com as costas e, aparentemente, esperavam por alguma coisa.

Martin abriu, despreocupado, os seus olhos.

— Que é?

— Que é o que? — disse o homem da barbicha.

— O que é que você quer?

A figura estalou os dedos. — Quero saber o seu nome. — explicou.

Martin dobrou uma das sobrancelhas. — Eu sou espada, viu? — ele disse.   

— Como é que é, seu palhaço?!  

Os outros colegas do homem precisaram acalmá-lo.

— Eu quero saber! — o homem continuava — Se você é aquele tal de Mellowick!

— E se eu for? — replicava Martin, que, apesar de educado, odiava que o intimidassem. 

O homem subiu os óculos à testa.

— Você vai ter muito o que explicar. — disse.

— Então não sou.

O garoto tapou o rosto com o chapéu.                                                                                                                                                             

— NÃO VEM COM ESSA! – mas então replicou a figura, e irritado tentou um forte cascudo contra a cabeça de Martin, que se desviou instintivamente. — Faz ideia do tempo que temos esperado por você, seu verme? Já faz três dias que estamos dormindo nesse cargueiro sujo, tudo porque o representante de um reino estúpido teve de se atrasar! Quem você pensa que é para se atrasar desse jeito?! Acha que a sua presença vale mais que a nossa?!

— Ah... sim. — então replicou Martin, cruzando seus braços por trás da cabeça. —Entendo porque você está estressadinho, mas, em minha defesa, eu não tinha ideia da existência dessa viagem até ontem à noite. Se insistem em culpar alguém, culpem quem organizou essa joça, não a mim.  Desculpas mesmo assim, eu acho.  

— AHAHA! Ei, ouviram, vocês todos?! Culpar os organizadores, é? Que bacana! — o homem comentava alto pelo convés, rindo forçadamente ao que encarava o céu sacando o seu revólver. — UMA OVA É QUE EU VOU! — então disse. — Por acaso isso aqui tem cara de excursão escolar?! Além desse mar tem uma ilha que está prestes a sumir de verdade, sabia? E se isso acontecer antes de aportarmos, lá se vai a nossa grana! Tempo aqui é dinheiro, e se você acha que pode arriscar o nosso então está muito enganado!

— Espera. Vocês estão sendo pagos? — Martin perguntou isso com inocência genuína.

— Como é que é...? — o homem já ia apontando o revólver.  

— Shh. Deixe isso pra lá, Tuta. — interviu o seu colega louro. — De qualquer jeito, você aí sentado. Esse lugar em volta do mastro é nosso. Por isso estamos aqui. Ficamos debaixo desse sol já tem uns três dias, então não pense que tem o direito de se forrar no nosso canto, atrasado desse jeito. Sai daí e não teremos mais problemas, tá certo?

Pouco antes do homem terminar a frase, Martin já estava de pé.

— Então era só isso? — suspirou ele. — Por que não disseram antes? Até parece que eu vou brigar por um pedaço de sombra. Podem ficar, eu não me importo. 

Tuta, o homem dos óculos e do cabelo emaranhado, se incomodava com quase tudo.

— Tsc. Não se importa, é? — ele reclamava — Não vá agindo como se fossemos os inconvenientes aqui, entendeu? Você, do sangue azul! — então ele pegou Martin pela gola.  

O rapaz ia perdendo a paciência. — Mas que merda vocês querem de mim? — perguntou. — Se querem tanto ficar na sombra, então por que não ficaram ali?

Neste momento, Martin estendeu a sua mão para o lado — apontando para outro canto sombreado no convés, onde o espaço era nitidamente maior. Até este ponto, valia notar como não tinha nada na discussão entre as figuras que exclamasse perigo, agressão ou seriedade. Tudo não passava de um desentendimento, e poderia ter acabado desta maneira.

Poderia, claro, se, em um piscar de olhos, uma pessoa atrapalhada não tivesse aparecido no convés, esbarrando no cotovelo de Martin com força. Sua palma se moveu sozinha, houve um estalo, e ela logo estava na cara do homem — estapeado por acidente.

— Ai! — a figura deixou escapar: ela era uma garota que Martin, francamente, nem viu direito, mas que tinha cabelos ruivos e uma péssima postura. — Me desculpa aí, viu?

Assim, sem mais nem menos, ela desapareceu no mar de tripulantes.

Martin não precisou olhar nos olhos de Tuta para saber que, agora, uma briga inevitável já estava instalada. Ele tirou a mão do seu rosto lentamente, e foi levando-a para a bainha. O rapaz já podia ver, inclusive, veias saltando do rosto do homem.  

— Que pena que você tenha chego tão tarde. — depois de um tempo, disse Tuta. — Nem vai poder aproveitar o Piston Pucker direito.

— E por que não? — Martin não resistiu perguntar.

Com uma velocidade, francamente, aterradora, o homem tomou uma enorme distância de Martin — dando inúmeros passos ligeiros para trás. Sua mão estava no coldre.

— Porque vai acabar morrendo... BEM ANTES DE ANCORAR NAQUELA ILHA!

A partir deste momento, a sequência de eventos que seguiu foi um pouco rápida e improvisada demais para descrever em detalhes. Assim que o homem apontou o cano para Martin, deu dois disparos; o primeiro, à uma boa distância, errou o alvo com o súbito movimento que Martin fez, sacando sua rapieira e acelerando uma corrida contra Tuta. O segundo disparo, por outro lado, foi feito à queima roupa, quando Martin já estava bem perto da figura, sua rapieira mirando-a no pescoço. Tuta empunhou o revólver com apenas uma das mãos e disparou, com uma velocidade surpreendente, no Martin que se aproximava. Mas, ao brandir a espada, em sincronia quase perfeita, Martin defletiu a bala.

Logo em seguida, ele tentou dar o seu próprio troco — mas Tuta o deteve.

Com sua outra mão, o homem prendeu a rapieira com sinistras garras postiças. Elas tinham o tamanho de espetos para churrasqueira, e eram retráteis. Tuta quis dar um terceiro disparo, mas, emaranhados como os dois estavam, seu tiro saiu desajeitado e acertou apenas o chão — causando um som de ricochete que assustou os passageiros.

Ao soltarem-se, Martin deixou de atacar.

No entanto, ele se manteve bem perto, e com o olho no revólver.

— Satisfeito? — o rapaz perguntava — brigar assim não vale a pena. Esquece.

— Hah! Não vale a pena por que? — retrucou Tuta, afiado.

— Porque você não vai me acertar só com alguns disparos. Vamos ficar aqui por uma eternidade, se você quiser mesmo insistir em estourar os meus miolos.

Ao ouvir isso, Tuta, que tinha a cabeça quente, achou um pouco de graça em sua vida e mudou sua expressão. — Hah. Hah! Hahahah! — ele gargalhou. — Uma eternidade, é? O que pensa que está dizendo, seu caipira Saboriano?

Normalmente, Martin teria se irritado e/ou ofendido com isso, mas a autoridade e confiança na voz do homem era tão genuína que ele acabou ficando sem reação.

— Posso acabar contigo em dois minutos, no máximo. Quer ver? — ao passo que as palavras de Tuta chegavam, Martin começou a sentir um ar úmido ao redor de si. No cano do revólver, alguns respingos de água gotejavam. Uma energia discreta — mas claramente perceptível — começou a emanar das mãos de Tuta e seus colegas se afastaram dele.

Sua próxima ação poderia ter sido catastrófica, mas justo no segundo em que Tuta pensou em levantar a mira, o forte marinheiro de antes surgiu atrás dele.

— Já basta. — disse.

— Não se meta nisso. — respondeu Tuta.

O marinheiro agarrou o seu ombro.

— Mmm... — suspirava. — Matar um passageiro está absolutamente proibido. Resolvam as suas diferenças em terra firme, se realmente precisarem. Se disparar contra este rapaz, serei obrigado a desembarca-lo da viagem, e não poderá mais viajar conosco.

Ao ouvir isto, Tuta fez uma interrogação com os olhos.

— Mas já estamos em alto mar!

— Não importa. — respondeu o marinheiro.

Tuta ajeitou a postura, recolheu seu revólver, fechou os olhos e pensou bem na situação. “Realmente não vale a pena” — foi mais ou menos o que ele concluiu.

— Certo, certo. — ele dizia ao marinheiro — Não vou estourar os miolos dele, então. Mas fique sabendo, Mellowick! Da próxima vez que nos encontrarmos, eu vou...!

Abrindo os olhos, Tuta percebeu que estava falando com o vento.

— Ele já foi embora. — disse o seu amigo louro.

Com seus olhos sombrios, Tuta murmurou algo para si mesmo.

“Bastardo.” 

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