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Momento Mellowick, Ato 1 — Uma Expedição Explosiva!

15 - Camarada Artística

15 - Camarada Artística

Jun 27, 2025

“Idiota.”  — disse Martin; conforme os pés desciam as escadas do casco.

O rapaz rumava a área dos dormitórios (ou, melhor dizendo, a área “dormir”), praticamente inabalado pelo acontecido de agora há pouco. Seus ouvidos já tinham se acostumado com o barulho dos pistões do navio — abrindo e fechando. Tanto que ele já os considerava viciantes e estava mais que pronto para arriscar uma soneca onde, pelo menos, todos tinham o seu próprio colchão e direitos iguais para descanso.

Lá fora, o sol começava a se pôr, e as tábuas rangiam em alto mar.

Martin chegava à base do casco ouvindo um anúncio: o de que seriam divididos em três grandes quartos, acomodando cerca de quinze em quinze tripulantes cada. Sem dizer uma palavra, fez-se em casa no quarto número três, sem saber se haviam lugares marcados ou não, e na entrada do quarto viu-se diante de uma aconchegante sala de maciça madeira, bem iluminada e com pouco mais de seis pequenas e redondas janelas revestidas nas paredes, mas repleta de feições de pessoas estranhas e misteriosas. Logo percebeu que, por pura sorte, fizera uma ótima escolha, pois lá não haviam goteiras, e no polido chão pouco havia de pó, como por ele ficavam também diversos colchões espalhados. Não era lá de muita classe. Na verdade, era de pouca ou nenhuma. Mas essa, no fim das contas, era a mesma comodidade que ele já estava acostumado: pouca ou nenhuma. Ao menos desde que deixara sua antiga vida no castelo, e, vindo de um lugar como Lackworth, não eram poucos recursos, um chão gelado e colchões duros que iriam incomoda-lo agora. Na verdade, em comparação ao quarto de sua própria cabana, lá era como um hotel de luxo, mas esse também não era um assunto que nos interessaria agora, porque o seu verdadeiro incômodo, naquele momento, seria outro encontro de impacto crucial à sua aventura.

 O curioso era que, apesar do “conforto”, Martin ainda estava incomodado. Mas, de tudo que o pudesse incomodar naquela viagem, agora, fossem bagagens ou armamentos dos tripulantes, que eram soltos e dispersos pelo chão amadeirado, escorregando de um lado para o outro meio ao balanço do navio. Ou, então, fossem as conversas altas e tosses, tais como gente fumando, roncando ou bebendo, ou mesmo a falta de noção de espaço por parte de alguns tripulantes, que empurravam e esbarravam-se uns nos outros, causando confusões e xingando alto por dentro do quarto. Mas não, não e não. O que realmente incomodava o rapaz, naquele momento, ao que disperso encontrava-se sentado num dos colchoados, no último canto virado à direita, abraçado à sua bainha e encarando uma das janelas, era a presença de algo muito menor, e também um tanto particular. Mas não, também não se tratava de um inseto, coceira ou atípico. E também não era enxaqueca, febre, dor de dente ou de ouvido. Era, na verdade, algo bastante meigo. Era uma garota.   

 Tratava-se de uma bela jovem com longos cabelos de um liso e escuro vermelho alizarina, penteados para baixo, na altura dos ombros, mas com uma poderosa ondulação no fim das mexas. Tinha também um belo e notável par de cílios; grandes e longos cílios que curvavam nas pontas como antenas de uma pequena borboleta, e juntos de uma clara e rosada sombra que ela havia aplicado nas pálpebras.  Ela sentava-se num colchão logo ao lado de Martin, vestindo um suéter bege e tricotado em ziguezagues castanhos, assim como uma saia laranja com duas grandes meias calças vermelhas que chegavam pouco acima do joelho, calçando também um carismático par de pequenas botas com cano curto e cor rosa. Levava no colo uma estranha aquarela; sua mão esquerda, pensativa com um pincel; a direita um mero apoio para o rosto; e ela parecia pintar algo. Pintava insistentemente, mesmo com o balançar enjoativo do navio.  

 Ironicamente, ela era também a menos vulgar, barulhenta, e disparada a mais agradável figura dentre todas as outras; calma e quieta em seu próprio canto, com a bagagem junta e a boca fechada, concentrando-se sozinha em seus próprios assuntos.

E mesmo assim, havia um problema: seus olhos. Mas não porque eram feios.

O problema, mesmo, é que ela não tirava os olhos de Martin. Coisa que já durava um bom tempo e que lhe estava causando calafrios e ansiedade como nada na viagem tinha causado até agora. Os olhos eram azuis cristalinos; muito azuis e muito cristalinos; o tipo de cor que pode ser tanto angelical quanto diabólica, de acordo com a intenção da encarada.

Mas Martin não conseguia abordá-la, culpando o que ele chamava de “precaução”. Também conhecida como “timidez” e, em sua definição mais honesta, “cagaço”.  

O tempo veio, e o tempo foi, mas nada foi dito.

Lá fora, uma tempestade se formava, e o quarto foi enchendo cada vez mais.

Martin tentava, como um passatempo, ganhar de si mesmo em um jogo de paciência, quando se deu por conta de que a velocidade dos pistões havia aumentado. Ao seu lado, os olhos da garota permaneciam atentos: as vezes vinham, e logo iam-se embora. O rapaz já tinha se acostumado com o ritmo e, agora, até cronometrava o momento em que a sua nuca esquerda seria assaltada pela mirada da sua vizinha. Só que, de repente, algo deu fim à sua sequência perfeita de adivinhos. Lá fora, um som opaco. Algo como uma onda forte colidiu contra o casco do navio, e todo o dormitório sofreu um breve tranco que fez alguns passageiros perderem o equilíbrio.

Nesse breve momento, seguido do “TUC” do impacto, Martin estava espiando a garota pelo lado. De imediato, ela se desequilibrou, derrubou seu pincel e agarrou a tela antes que caísse — mas antes disso, o suporte tombou à sua direção e, num milésimo de tempo, Martin viu, supostamente pintado, o que parecia um retrato realista dele mesmo.

Aquilo tinha sido a gota d´água.

Logo todos se reestabeleceram em seus colchões. O Piston Pucker voltou ao seu ritmo normal, os pistões desaceleravam, a tempestade rugia, e tábuas foram invertidas.

Agora, era Martin quem encarava — decisivamente — a menina. Não sendo nada idiota, a figura logo percebeu isso e, em uma atitude cara de pau, ela passou a evitar o olhar do rapaz e, praticamente, esconder-se atrás da tela onde pintava.

Mas Martin não iria comprar isso.

— Ei. — ele disse. — Você.

Por um momento, não houve resposta; e no momento seguinte, também não.

— Ei! — repetia — Estou falando contigo! Sai detrás dessa tela!

Conforme a figura erguia a cabeça, os dois se olharam nos olhos pela primeira vez.

— Tá falando comigo, moço? — dizia a garota.

— Aham.

— E o que foi?

— Eu só tenho uma pergunta: por que é que você está me encarando toda hora?

A menina fabricou uma expressão de surpresa. — Quem, eu?

— Sim, você! — reclamou Martin, porque tanta cara de pau o tirava do sério.

— Eu não sei do que está falando.

— Pois eu sei o que você tá pintando.

— SABE?! — acelerou-se a figura, mas depois recuou. — Quer dizer... sabe?

— Claro que sei. Sou eu!

— Hã? — disse a menina, e fez um rosto enojado.  

Martin ficou vermelho como um tomate.  

— Não inventa, não! — ele apontou o dedo à figura. — Eu vi, tá escutando? Tava nessa sua tela, e era eu! Da cabeça aos pés, idêntico a mim: e eu não sei por que você faria um negócio desses, mas não venha passar a esquisitice para mim! Eu só estava aqui sentado!

A garota ficou um pouco tímida, e abriu um sorriso enorme no rosto.  

— Idêntico, hehe... acha mesmo que estava idêntico? hehe...

— Você tá me assustando.

Apesar do mistério todo estar, praticamente, resolvido, Martin ainda não tinha conseguido dar uma boa olhada na pintura, e essa era sua prioridade máxima.

— Ah! — ele exclamou, do nada. — Cuidado! Tem um escorpião no seu pé!

— QUE? — nesse momento, o pânico desconectou a garota de tudo e de todos.

Martin era rápido o suficiente para tomar a tela em, no máximo, 1 segundo e meio, caso a garota não estivesse prestando atenção: e isso foi exatamente o que ele fez.

Então ele deu uma boa olhada.

Clara ainda tirava as próprias botas, no desespero, quando se deu conta da trapaça.

— AH! NÃO! — disse ela, e tomou a tela novamente.

Então, ela manteve os olhos em Martin, abraçada à sua obra e envergonhada com a situação. Apesar do vexame, a figura ainda esperava ouvir o que ele tinha a dizer daquilo.

— MAS QUE COISA É ESSA? — foi o que Martin teve a dizer daquilo.

Ao ouvir isso, a menina se sentiu um tanto intimidada. Ela abaixou a cabeça, olhou para a tela e começou, melancólica: — Também não precisa chamá-la assim, sabe...?

— É isso que você estava pintando? — Martin continuava a dizer, eufórico.

— Sim, mas...

— Você?

— É! Só que...

— Mentirosa! — de repente, acusava o rapaz.

— QUE?!

— Isso só pode ser uma foto! — Martin continuava. — Um truque com revelação, não sei! Não é possível que você tenha pintado tudo isso em menos de duas horas!

Dito isso, a garota se viu dividida entre se sentir lisonjeada ou ofendida.

— Mas é claro que eu que pintei! — ela disse.

— Pintou nada!

— Pintei sim!

— Pintou nada!

— Pintei sim!

Eles discutiram por um longo, longo tempo.... mas só até que, eventualmente, ambos se viram cansados e pediram trégua. Martin já entendia melhor o gênio da menina; que aceitava melhor o fato de que era um gênio. Os dois tinham uma expressão neutra.

— Parece bruxaria. — comentou Martin.  

— Bruxa é sua mãe.

— Desculpe. Quis dizer que ficou muito bonito.

— Se é assim... muito obrigada.

— Posso só te fazer uma pergunta?

— Pode.

Martin ajeitava o chapéu. — Por que eu? — perguntou. — Por que uma pintura minha?

De maneira discreta, a menina apontou para o braço do rapaz com o pincel.

Martin arregalou os olhos. — Ah, sério? Mas eu nem tenho treinado...

— Não, não! — exclamou a menina. — Não são os seus braços de macarrão. É o casaco!

— Ah!

Houve um minuto de silêncio em que Martin pôs-se a examinar seu casaco.

— Mas... por que? — então perguntou, genuinamente.

— Porque é um casaco fino, claro!

— É, põe fino nisso. Essa coisa nem esquenta, mais...

— Não fino desse jeito! Fino de caro! Elegante! Onde você achou isso, afinal?!

— Era do meu avô.

— Avô, é? Por acaso ele era rei?

— Não viaja na maionese. — dizia Martin. — Mas me diz, então. O que é que tem de tão chique nesse casaco? Ele sempre me pareceu muito comum!

— É o algodão, menino! O algodão! Você deve ser do norte do continente, não é?

— Como você sabe...?

— Porque é só por lá que você pode conseguir uma vestimenta de algodão. O algodoeiro é super raro! Essa árvore não existe mais, no continente, com exceção de algumas plantações em território Antuniense. Uma cueca disso pode te comprar uma casa, no sul.

Martin colocou-se pensativo. — É verdade que já tentaram roubá-lo de mim, mas...

— Mas?

— Sei lá. Eu dei um pau em todo mundo. Nunca ia saber disso. E por que você sabe?

— Hehe. Eu sou artista, meu bem! Nada que é de bom gosto escapa da minha mira.

— Uma artista, né...? — Martin apoiou-se na parede do lado. — A loucura deu pista.

— Que?

— Perguntei o seu nome de artista.

—  É Clara. — disse Clara. — Clara Borgaline. E o seu?

— Ah, eu? Desculpa. Não sou artista.

— Só diz logo o seu nome!  

Martin estendeu a mão. — Chamo-me Martin. — e se cumprimentaram. — Prazer.

— Martin? — estranhou Clara. — Martin Mellowick? O cara de Antunis?! O atrasadão?

— Sim, Martin Mellowick.

— AH! Agora faz sentido, esse casaco! Você é mesmo um boyzinho safado!

Martin revirou os olhos, incomodado.

— Sim, sim, a família é rica, e daí? — disse. — Eu não vivo com eles, mesmo!

— Mas você continua sendo um nobre, não?! Por que te enviaram para cá?!

— É uma longa história. Não quero falar sobre isso, agora. E não me chame de nobre.

— Ah! Esse lugar está cheio de gente importante, mesmo! — continuava Clara, com pupilas de coração — Que emocionante! É o lugar perfeito para o coração de uma artista!

— Suponho que sim. — bocejou Martin.

Clara chegou por perto do seu ouvido. — Quer saber por que eu vim até aqui?

— Agora não.

— Tudo bem! Então eu vou contar!

— Mas eu disse que...

— É que eu sempre quis viver uma aventura, sabe? — ela explicava — Os meus maiores ídolos têm uma coisa em comum: todos atingiram o seu auge em momentos de excitação e aventura em suas vidas! Não é demais? Então eu ouvi falar da Ilha de Goa... Uma magnífica ilha tropical, isolada do nosso mundo e esquecida pelo tempo: uma ilha que ninguém retrata com arte há séculos! E como se isso já não bastasse, tem a cereja no bolo. O fato de que ela pode explodir! Pense nisso! Milhares de vidas, todas em risco, e o futuro dessa ilha pode ser decidido por nós! Ah! — Clara juntou as palmas com uma expressão apaixonada. — Nem acredito que consegui embarcar! Parece algo tirado de algum livro épico! Tenho certeza que ideias maravilhosas vão surgir e, quando voltarmos, serei uma grande artista!

Após todo o discurso, Martin tomou aquilo com uma pitada de sal.

— Isto se a gente não explodir em mil pedaços... — ele disse.

O rosto de Clara se amargurou um pouco. — Não seja tão pessimista...

— Você que tá sendo otimista demais, eu acho.

— Hehe, você que pensa! — replicou Clara. — Escuta, eu tenho um plano! Não conte para ninguém, mas... dentro dessa bolsa, tem um bote inflável compacto, preso com um cadeado! — ela puxou, de dentro do suéter, um cordãozinho com uma chave. — Se a coisa ficar preta, então eu vou dar o fora! E cabe até duas pessoas! Por que não se junta a mim?

— Os redemoinhos vão te engolir viva.

— Isso não respondeu à minha pergunta.

— E nem vai. — dizia Martin. — Mas, de qualquer forma, Clara, como passou no teste?

— Do que está falando?

— Do marinheiro bizarro. Sabe, aquele que estava recebendo os tripulantes.

— Ah, ele? — a garota recordava com inocência. — De que teste você tá falando? Eu até pensei que seria mais difícil embarcar aqui, mas ele me deixou entrar de boa!

— De boa? Tem certeza? — Martin tinha os olhos arregalados. — Nada de anormal?

A menina pôs o indicador no queixo. — Olha... enquanto conversávamos, eu BEM que derrubei alguns pinceis no chão... e eu BEM que senti uma rajada de vento enquanto estava agachada, mas... Não. Nada de anormal. Até nos cumprimentamos, depois. Por que?

Martin estava sem palavras.

— Por nada... Não era nada.

Neste exato momento, o rapaz observava Clara, casualmente, sacar uma banana prata de dentro da sua bolsa, descascando-a ali mesmo. — Aceita uma mordida? — ofereceu ela.

— Não... Não obrigado.

 

Lá fora, o Piston Pucker continuava firme. Dançando nas ondas com seu forte gingado.

 

Lá dentro, por bem ou por mal...

 

Martin sentiu que não havia mais volta para o laço que tinha formado.  

dudoteacher30
momentodudo

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CLARAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

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