A primeira luz da manhã tocava o Círculo das Vozes, filtrando-se entre os galhos ancestrais. A névoa se erguia como um véu, dissipando-se devagar e revelando um pedaço de floresta onde o tempo parecia parar para respirar.
Grumak acordou com o corpo tenso, o eco do sonho ainda vibrando sob a pele. Malias já estava desperta, sentada ao lado da Maeliri, que agora parecia diferente — guardada num pano de couro trançado, como se tivesse virado um artefato sagrado. Tibrok bocejava alto, o pelo todo arrepiado, as orelhas amassadas de sono.
— Acho que dormi demais… — murmurou ele. — Nem os pesadelos me acharam. Esse círculo é coisa fina.
— Era. Tá na hora de seguir — disse Malias, mastigando a última Frulambra.
Grumak observava em silêncio as cinco pedras em seu lugar. O círculo parecia quieto, mas havia uma expectativa no ar. Como se tudo estivesse esperando o próximo passo.
— Grumak — chamou Tibrok, apontando para as pedras — você ativou… então só você pode desligar. Essas belezinhas foram ligadas à sua energia.
Ele se ajoelhou, colocou a mão sobre a primeira pedra.
No instante do toque, ela brilhou. Um som leve, como energia sendo sugada — e sumiu.
Absorvida pela luva.
Grumak franziu o cenho.
— Isso não era pra acontecer...
— O quê? — Malias se aproximou, alerta.
— A luva... puxou a pedra. Sozinha.
Tibrok empalideceu.
— Testa outra. Só pra… confirmar.
Grumak encostou na segunda.
Mesmo brilho. Mesmo som. E mais uma pedra sumiu.
Uma a uma, as cinco foram absorvidas.
No fim, uma projeção breve surgiu em frente aos olhos de Grumak — símbolos, padrões de combate, rúnicas que ele não entendia, mas sentia. Como se a luva falasse com ele, mostrando algo... além.
E então tudo se desfez, como uma visão quebrada pelo vento.
— Eu vi... habilidades. Técnicas novas. Foi como… se minha mente entendesse tudo por um segundo.
Tibrok deu dois passos para trás, tremendo.
— Isso é MUITO ruim. As pedras conectam o mundo físico ao espiritual! A gente precisava delas pra ativar o círculo do Tuntor! Se sua luva absorveu a energia…
— Talvez tenha integrado isso — disse Grumak, abrindo a palma. — Permanentemente.
— Aí, Nok’vai me protejam... vamos morrer esmagados por uma fera ancestral vestida de joias lunares amaldiçoadas!
Malias pôs a mão no ombro dele.
— Respira. Um problema por vez.
Grumak fechou o punho, a luva agora pulsando com uma energia suave e precisa.
— Se o Tuntor aparecer... eu encaro.
Tibrok soltou um suspiro trêmulo.
— Só espero que ele não esteja bem descansado.
O caminho até o Berço de Tuntor foi silencioso. A tensão crescia a cada passo. A trilha ancestral terminava numa elevação de raízes grossas. Tibrok afastou os galhos e parou, os olhos arregalados.
— Chegamos.
Lá embaixo, o vale.
Escondido entre muralhas de pedra cobertas de musgo, o local era uma abóbada viva. No centro, um grande círculo de terra nua, desenhado por sulcos como se raízes tivessem passado por ali.
Flores azul-violeta brotavam entre pedras. O ar era doce… e inquieto.
— Esse é o Berço de Tuntor — sussurrou Tibrok. — Onde a primeira joia caiu. Quando ele se fundiu ao cristal.
Malias observava a árvore gigantesca no centro da clareira. Os galhos pareciam braços de um deus adormecido.
Grumak se ajoelhou. Da mochila, tirou os itens que receberam de Venlar:
Cinco frascos com líquido verde viscoso — para dissolver cristais impuros.
Uma pá de prata negra.
Um talismã esculpido em madeira viva.
Um pano azul com fios dourados.
E uma pedra de emergência — instável, única.
Malias se agachou ao lado.
— Isso é um ritual. Não uma missão comum.
— Talvez seja os dois — murmurou Grumak.
— Vamos ficar nas bordas — disse Tibrok. — Quando a lua tocar o galho mais alto... ele virá.
A tarde foi derretendo em silêncio.
E então… veio a noite.
No instante em que o último raio dourado sumiu por trás das árvores, o chão estremeceu. Não como um terremoto, mas como se algo gigantesco tivesse se virado sob a terra. Um suspiro antigo, profundo.
O vento não soprou — ele girou. Um redemoinho lento, silencioso, que percorreu o vale em uma única espiral, como se o próprio ar tivesse dado uma volta completa ao redor do mundo.
E então, o mundo reagiu.
As árvores ao redor começaram a se afastar. Não andaram, não se moveram — mas o espaço entre elas e o centro do vale se esticou, distorcido, revelando algo escondido sob a pele do tempo.
O que antes era uma clareira virou uma planície sagrada. Um campo vasto, aberto, onde o real e o mítico se fundiam.
À esquerda, a terra viva — flores douradas que brotavam sob os pés, folhas sussurrando segredos com o vento, a brisa carregando perfume de ervas esquecidas. À direita, solo seco e rachado, cinzas espalhadas, pedras negras cuspidas pela própria dor do mundo.
Uma linha perfeita cortava tudo ao meio. Luz e trevas. Vida e ruína.
— O que… é isso? — murmurou Malias, os olhos fixos no horizonte, a mão inconscientemente pousando sobre a Maeliri em seu cinto, que pulsava com luz âmbar.
Tibrok estacou. O corpo inteiro congelado.
— Olhem... lá.
No lado escuro, uma elevação rochosa começou a surgir, onde antes havia apenas névoa. E sobre ela… um trono. Colossal. Esculpido em pedra negra, coberto por raízes cristalinas que emitiam uma luz azulada, fria, como se o próprio tempo respirasse ali.
Não era um trono para reis. Era algo anterior. Um assento de julgamento.
Ao redor, colunas de pedra brotavam do solo como espinhos, e símbolos antigos pulsavam na base — como batimentos de um coração enterrado sob eras de silêncio.
Grumak apertou os punhos, o olhar estreito.
— Isso é mais do que um campo… Isso é um altar.
Tibrok engoliu em seco.
— É uma arena. Dividida. Sagrada. E no centro... o ponto de equilíbrio.
A Maeliri de Malias brilhou intensamente. Reconhecia aquele chão. E talvez, de algum modo, Malias também.
O trio se entreolhou. Nenhuma palavra dita. Mas todos sentiram: ali, algo desperto. Algo que os observava.
Então veio o tremor. O sussurro do solo. O som de correntes antigas se partindo.
E o Tuntor apareceu.
Não surgiu — estava.
Sentado sobre o trono, como se fosse parte dele desde a criação do vale. Gigante. A pelagem espessa e prateada cintilava como neve sobre pedra. Os chifres espiralavam, dourados e vivos, apontando para um céu onde as estrelas tinham cessado.
Seus olhos permaneciam fechados.
Mas sua presença era absoluta.
A voz não veio pela boca.
Veio pela alma.
— Este é o ciclo. O eterno retorno. Onde luz e trevas não disputam territórios… mas corações.
Tibrok caiu de joelhos. Malias não disse nada, mas seu corpo estava tenso, o arco a um sussurro de distância.
O Tuntor ergueu o braço — e apontou para a escuridão.
— Venha, Zarku... servo das raízes corrompidas.
O chão rachado se abriu.
E dele… emergiu uma figura conhecida.
Zarku. Um Nok’vai. Ou o que restava de um.
Pele acinzentada, orelhas queimadas, olhos vermelhos e apagados. As roupas feitas de ossos secos e folhas mortas. Um cajado torcido em punho.
Tibrok soltou um ar sufocado.
— Ele… ele era da minha vila. Sumiu há muito tempo…
Zarku não falou muito. Curvou-se ao Tuntor, e apontou para trás.
Das fendas, surgiram espectros.
Sombras ambulantes com olhos alaranjados. Alguns tremiam. Outros flutuavam como fumaça faminta.
E então, no centro, veio algo diferente.
Um Eco-Sangrento.
Escuro. Denso. O corpo feito de pedra flutuante e neblina viva. Duas lâminas negras orbitando ao redor dele como luas silenciosas. Seus olhos ardiam em branco.
Tibrok tremia.
— Isso não é só um líder. É um fragmento antigo. Um catalisador. Um pesadelo.
Malias puxou o fragmento de invocação, mas não ativou. Grumak cerrou os punhos, a luva vibrando com energia gélida.
O Tuntor abriu os olhos.
Dourados. Imensos. Eternos.
Sua voz agora era som:
— E onde estão os escolhidos da luz? Que provem o valor de seus corações… diante da queda.
O silêncio foi quebrado por um soluço.
Tibrok.
Ele se aproximou de Grumak, olhos no chão, a voz embargada.
— Eu… não sabia que seria isso. Não sabia que essa missão era… a Noite do Aconselhar de Forças.
Grumak franziu o cenho.
— Que porra é essa?
— Uma lenda Nok’vai. A cada era, a floresta escolhe. Um representante da luz. Um da sombra. Não é só batalha. É julgamento. Um ciclo que pesa a alma do mundo.
Ele respirou fundo. E do pescoço, tirou um cordão.
No cordão, uma moeda antiga — marcada por um símbolo desconhecido, mas vibrante.
Colocou-a na mão de Grumak.
— Se você cair... pelo menos carrega o nome da minha tribo com você.
Grumak segurou firme. E assentiu.
Mas antes que pudesse responder, uma luz branca envolveu Tibrok. Ele se ergueu do chão, suspenso por partículas de energia.
Seu corpo desapareceu.
E reapareceu, flutuando sobre a mão esquerda do Tuntor.
— Trago meu campeão da luz — disse o gigante. — Um coração guiado pelo vínculo.
Tibrok foi depositado num espaço abaixo do trono, numa plataforma viva, cercado por raízes e névoa.
Malias foi puxada em seguida, envolta por um brilho prateado. Sua forma se moveu como fumaça até surgir diante do trono, sentada sobre uma cadeira formada por folhas douradas e pedra branca. O trono da intuição. Do julgamento.
Do lado oposto, Zarku já observava tudo com olhos semicerrados, sentado em uma estrutura semelhante — mas feita de cinzas.
A arena foi deixada para dois.
Grumak e o Eco-Sangrento.
Grumak olhou ao redor. O chão pulsava. Os espíritos da luz se erguiam como soldados sem direção.
E a voz do Tuntor surgiu clara e retumbante dentro da consciência de Grumak:
— Guerreiro do sangue antigo… você já decidiu? O campo o aguarda.
Grumak fechou os olhos. Respirou fundo.
— Antes disso… me diga o que é isso tudo.
Por que estamos realmente aqui?
— Este é o Julgamento das Raízes.
A cada era, luz e escuridão se enfrentam, em busca de equilíbrio.
A floresta — viva, antiga — não pertence a um nem a outro. Ela pertence ao Ciclo.
Mas há séculos, a luz não vence… e, por isso, as feras da vida não têm lar. Vagam. Murcham. Esquecem.
A escuridão domina. E com ela… vem a corrupção.
Hoje… isso pode mudar.
Grumak abriu os olhos devagar.
Viu Malias, sentada no trono, séria como nunca.
Viu Tibrok, firme apesar do medo.
E viu os seres da floresta… esperando por alguém.
Esperando por ele.
Então… se moveu.
Com um estalo no ar e um lampejo azul, Grumak surgiu no centro do campo de luz.
Cercado pelos espíritos das feras, pelos elementais, pelas criaturas da natureza.
O caos recuou.
As criaturas se alinharam.
Os olhos voltaram-se para ele.
E algo — tudo — se alinhou.
O campeão havia se revelado.
Um vento forte cortou o vale.
Do lado sombrio, o Eco-Sangrento ergueu uma das lâminas flutuantes.
Uma aura negra, densa e pulsante, começou a brotar de seu corpo.
O chão ao redor rachava, apodrecia, como se a própria terra o rejeitasse.
Seus olhos — duas brasas brancas — cravaram-se em Grumak.
Malias, na beira do trono, observava atenta.
— Parece que já temos nosso confronto — disse ela, em tom grave.
Grumak não respondeu.
Apenas fechou os punhos.
A luva elemental brilhou num tom azulado gélido.
O ar ao seu redor... começou a esfriar.
Tibrok deu um passo para trás, olhos arregalados.
— Grumak…
Se você cair, a floresta será das trevas.
E nós… não teremos mais onde pertencer.
Grumak assentiu. Os olhos não deixavam o inimigo.
— Eu não vou cair.
E então…
O silêncio explodiu.
O campo havia sido definido.
A batalha sagrada estava prestes a começar.

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