O vale sagrado ainda respirava em silêncio.
Exércitos postos. Luz e trevas. Vida e morte. Estáticos como estátuas enterradas em eras.
Mas o ar… vibrava.
No centro da arena, a tensão entre Grumak e o Eco-Sangrento era uma corda prestes a se partir.
Foi o som seco do cajado de Zarku, batendo no chão rachado, que rompeu o silêncio.
O Nok’vai das sombras surgiu das trevas como uma prece esquecida. Caminhou até o limite entre os mundos — onde a grama viva tocava a terra morta — e se curvou. Não diante dos exércitos. Não para Grumak.
Para o trono.
— Tuntor, Mestre do Equilíbrio… — disse, com voz rouca como folhas secas. — Peço que me seja concedida a palavra.
O Tuntor não falou. Apenas assentiu, lento.
Zarku ergueu-se como se o mundo curvasse com ele.
— Os corações já foram revelados. O campo está traçado. Mas… será mesmo preciso mergulhar tantos na destruição, se temos aqui dois campeões dispostos a carregar o peso do julgamento?
Apontou com o cajado para Grumak e para o Eco-Sangrento.
— Proponho: que este ciclo seja decidido por um único combate. Campeão contra campeão. Essência contra essência. Até que reste um.
O sussurro da proposta atravessou os dois exércitos. Criaturas silvestres se entreolharam. Até os espectros cessaram seu murmúrio.
No trono menor, Malias se inclinou, franzindo o cenho.
— Claro… lógico. Mas Zarku só propõe isso porque aposta no monstro dele.
— E com razão — murmurou Tibrok. — O Eco-Sangrento vale por cem.
A mão do Tuntor se ergueu, e o mundo prendeu a respiração. Quando falou, sua voz ecoou dentro de todos:
— O Equilíbrio aceita. Esta noite será decidida pela essência.
Grumak e o Eco-Sangrento estavam no centro. Nada mais importava.
A luva elemental em seu braço pulsava em azul, fria como o vento dos picos. À frente, o inimigo — um amálgama de rocha viva, sombra e sangue espiritual. Duas lâminas negras flutuavam à sua volta, famintas.
Eles colidiram.
O primeiro foi Grumak com um soco. O espectro desviou como névoa viva e respondeu com um corte. A lâmina passou rente, mas Grumak girou, o antebraço congelado desviando o golpe num estalo de gelo e faíscas.
Mais ataques. Dois. Quatro. As lâminas vieram em sequência. Grumak resistiu, bloqueando com o peso da terra e respondendo com socos precisos que espalhavam veios de gelo pela carcaça do inimigo.
Mas o Eco não era feito de carne. Dissolvia o gelo com pulsos de escuridão.
As lâminas aceleraram. Grumak bateu os punhos no chão e ergueu uma muralha de gelo. Defesas explodiram, os dois saltaram ao mesmo tempo.
Impacto. Gelo. Sombra.
Grumak foi lançado para trás, varrido por uma onda negra. Deslizou no chão por metros.
— Eles estão se medindo… — sussurrou Malias.
— É mais que força — disse Tibrok. — É alma.
O Eco recuou. E chamou o passado.
A criatura ergueu os braços.
E então, a aura negra se condensou numa espiral viva.
Cada rotação parecia arrancar um grito do tempo esquecido.
Do topo do redemoinho, três feixes de energia escura dispararam como trovões invertidos, rasgando o solo sob os pés do Eco-Sangrento.
E ali, entre a rachadura, eles surgiram.
Três sombras, lendas… quebradas.
A primeira, curvada, se movia com o silêncio de um predador.
Um ladino das folhas dançantes.
Adaga corrompida nas mãos, olhos como lâminas esperando sangue.
A segunda, de corpo alto e arcado flamejantes, mantinha um arco que parecia chorar fogo.
Uma arqueira.
Seus olhos choravam dor, mas seu sorriso era de quem abraçava a destruição.
A terceira, gigante, vestia uma armadura espiritual rachada, o machado imenso nas costas.
Um titã.
Vendado por tiras negra, como quem não queria mais ver o que se tornou.
Grumak recuou um passo.
Não por medo — mas por respeito.
Esses não eram inimigos comuns.
Foi quando, pela primeira vez,
o Eco-Sangrento falou.
Sua voz não era um som —
era uma sensação.
Arranhava os ossos. Arrepios envenenados.
— Você sabe quem são eles, Grumak? — ele disse, girando as lâminas com calma.
— Fragmentos de antigos campeões… que me desafiaram. E falharam.
— Três falhas do equilíbrio.
Com um gesto, apontou para cada sombra:
— Jor’nel. Hesitou em proteger sua vila.
— Sallira. Se perdeu ao tentar purificar tudo — mesmo o que não precisava ser salvo.
— Velgran. Acreditou que força era tudo… e foi esmagado por ela.
Grumak cerrou os punhos. Os vapores frios começaram a subir, mais densos.
— Usando os mortos como arma?
— Eles não estão mortos, Grumak.
— Estão aqui… porque escolheram perder.
— Eu apenas guardei suas Almas.
Tuntor se mexeu no trono, pela primeira vez.
— Isso é trapaça! — rugiu Tibrok — Está quebrando as regras do julgamento!
Malias apertou o punho, os olhos fixos no campo.
— Não é só trapaça…
— É psicológico. Ele está jogando o passado contra a esperança… pra destruir o presente.
Na arena, os três fantasmas começaram a circular Grumak.
A tensão era sufocante.
Até os seres da floresta recuaram.
Cada passo dos espectros deixava marcas negras no chão.
E Grumak… apenas girou os ombros.
Vapor subia em redemoinhos suaves dos punhos até os cotovelos.
Firme.
Inabalável.
— Pode trazer quantos quiser — disse ele, encarando o Eco-Sangrento.
— Eu vou derrubar todos. Um por um.
E então, sem aviso…
eles atacaram.
Grumak assumiu posição de combate, os olhos fixos nas três figuras sombrias que agora o cercavam como predadores antigos. Cada uma emanava uma aura distorcida — ao mesmo tempo, como se fossem ecos de almas quebradas que um dia foram nobres.
Jor’nel, a sombra ágil, foi o primeiro a atacar.
Com um salto quase invisível, surgiu à esquerda, com sua adaga de sombra. O golpe veio rasgando o ar, lateral, direto na costela.
Grumak girou no último segundo, erguendo o braço direito. A luva congelou o ar ao redor, formando uma placa de gelo desviando a lâmina por centímetros.
— Rápido demais… — rosnou, recuando um passo.
Sallira, a arqueira, não esperou. Seu arco espectral se iluminou com uma chama negra, disparou três flechas flamejantes em sequência. Cada uma seguia uma trajetória curva, mirando os flancos como serpentes em chamas.
Grumak bateu o pé no chão e ativou o teleporte. Desapareceu e surgiu atrás de Velgran, o terceiro oponente, tentando um contra-ataque com um soco cruzado.
Mas Velgran. O titã se virou com o machado em arco, e Grumak teve que curvar o corpo para escapar. Rolou no chão, o impacto da arma passando a centímetros de sua cabeça e rachando o solo onde estava segundo antes.
— Nenhum de vocês luta como um fantasma... — murmurou, levantando.
E então... vieram juntos.
Jor’nel desapareceu e surgiu atrás dele, cravando a adaga no ombro esquerdo. No mesmo instante, uma flecha flamejante atingiu as costas de Grumak em cheio, disparada do alto por Sallira.
Dois golpes, quase ao mesmo tempo.
Grumak grunhiu de dor, cambaleando. Sangue escorria pelo ombro, e sua capa rasgada soltava fumaça onde a flecha queimara o tecido.
Malias se levantou parcialmente do trono, os olhos arregalados.
— GRUMAK!
Tibrok cobriu a boca, em pânico.
— Não… ele tá sendo encurralado!
Mas antes que os três pudessem coordenar outro ataque, Grumak fechou os olhos por um instante. Respirou fundo. E então ativou novamente o teleporte.
Com um clarão congelante, desapareceu da emboscada e surgiu no ar, acima de Sallira. O punho direito envolto em gelo brilhante.
— Agora é minha vez…!
Um soco como martelo, acertando a arqueira espectral em cheio no ombro. O impacto a lançou contra o chão da arena com um estrondo gélido. Cristais congelados explodiram ao redor, e sua forma piscou, instável.
Mas Jor’nel já estava em movimento de novo, correndo pelas sombras, surgindo e desaparecendo à vista. Grumak girou, tentando acompanhá-lo — mas foi Velgran quem apareceu pelas costas, o machado já no alto.
Grumak se teleportou novamente, surgindo atrás do titã. Mas Jor’nel o esperava lá, e o golpe veio em diagonal, como se soubesse exatamente onde ele ia estar.
Ele ergueu os dois braços, cruzando-os com a luva, bloqueando o impacto. O choque sacudiu seus ossos.
— Vocês são rápidos… — disse, os olhos brilhando. — Mas eu sou o muro entre vocês e o que resta da floresta.
Com um grito de guerra, liberou uma onda gélida em círculo. A explosão de frio empurrou os três inimigos para longe.
Por um breve instante, o campo ficou quieto.
Grumak estava ofegante, suando, com feridas abertas nas costas e no ombro, mas ainda de pé.
Malias sussurrou:
— Vamos, Grumak... mostra pra eles por que você foi escolhido.
Os três espectros rodeavam Grumak como uma presa. Sangue escorria pelas costas, a respiração pesada, e o suor já se misturava à terra sob seus pés. A luva elemental ainda brilhava…, mas fraca, com os cristais de gelo rachados pelos últimos bloqueios.
Sallira flutuava à esquerda, o arco espectral armado com mais três flechas flamejantes.
Jor’nel se movia pelas sombras, um vulto letal à espreita, pronto para atacar pelas costas.
Velgran, o titã caído, levantava o machado com as duas mãos — o corte horizontal viria com força suficiente pra dividir uma montanha.
Grumak estava cercado.
Os joelhos tremiam.
Mas ele não caía.
Os olhos ardiam.
Mas ele não piscava.
E foi aí, entre uma respiração e outra, que algo dentro dele se acendeu.
Uma memória.
A voz de Shiro, tão pequena, tão frágil naquela noite esquecida.
“Pai… por que você nunca cai?”
E então a resposta — dele mesmo, anos atrás, debaixo do céu estrelado do velho mundo:
“Porque eu sou seu chão. Se eu cair… não sobra mais nada pra segurar você.”
Aquelas palavras explodiram dentro dele como um trovão. O tempo congelou. O mundo pareceu parar de girar.
As pedras absorvidas pela luva.
A energia do círculo.
O vínculo com a floresta.
Tudo ressoou de uma só vez.
A luva brilhou com um pulso de luz prateada. Um símbolo ancestral surgiu na palma — a marca de Narulen. Runas começaram a piscar, uma a uma, na mente de Grumak. As cinco pedras, os elementos, formando um círculo à sua volta.
E quando os três espectros avançaram juntos — flechas flamejantes, lâmina sombria, machado corrompido — Grumak soltou um único grito… erguendo o punho ao céu.
— Pedras do Véu… me deem o chão que sustenta a vida.
No exato instante em que os ataques colidiriam com seu corpo, uma barreira de energia translúcida surgiu ao redor dele. Cinco camadas pulsantes, cada uma marcada com o símbolo de uma pedra sagrada.
As flechas de Sallira bateram na camada externa e se desintegraram.
A adaga de Jor’nel foi repelida por uma explosão de luz azulada.
E o machado de Velgran… trincou. Depois, partiu-se ao meio.
Um estrondo rasgou o vale.
Luz e sombra se dissiparam.
E Grumak permaneceu de pé, intocado, no centro de sua muralha mágica.
Do alto, Tibrok gritou:
— Ele despertou a Proteção dos Veios!
— O quê?! — Malias arregalou os olhos.
— É uma habilidade sagrada! Uma barreira ancestral, criada pela união das cinco pedras do círculo! Só os Nok’vai antigos sabiam usar isso. E ele… ele fez isso por instinto!
No campo, Grumak abaixou o punho devagar. A barreira ainda brilhava em volta dele, mas agora mais sutil, controlada.
Ergueu o olhar.
Firme. Focado.
O cansaço ainda estava lá…, mas o medo, não.
— Agora… é minha vez.
O campo silenciou após o colapso do ataque triplo.
Grumak, agora envolto por uma aura pulsante, sentia o poder correr por suas veias. Gelo. Fogo. Terra. Vento. Os quatro elementos dançavam sob sua vontade. As runas brilhavam suavemente, como se, as pedras tivessem liberado todo o seu verdadeiro poder.
Ele não ia desperdiçar essa chance.
— Vamos dançar, sombras…
Jor’nel surgiu pelas costas, apostando mais uma vez no ataque furtivo — mas, Grumak sentiu sua presença.
Num instante, girou o corpo e bateu o pé no chão. Uma onda de terra se ergueu em espinhos, travando os movimentos do espectro.
Antes dele escapar, Grumak avançou com um impulso de vento — rápido como uma flecha. O punho flamejante acertou o abdômen da sombra, envolvendo-a em chamas. No mesmo movimento, desferiu outro soco gelado direto no peito do inimigo.
O impacto estilhaçou Jor’nel como vidro.
A sombra se desfez em fumaça.
— Um já foi.
Sallira recuava no ar, preparando outra saraivada de flechas flamejantes. Mas Grumak não deu espaço.
Com a luva vibrando, ele saltou — alavancado pelo próprio ar. Ainda no alto, juntou as mãos e girou, formando uma espiral incandescente ao seu redor.
— Redemoinho de Cinzas!
A espiral o envolveu como um furacão, e ele colidiu com Sallira em pleno voo. Chamas engoliram os dois, até que, num estrondo, que a lançou como um meteoro.
O impacto abriu uma cratera fumegante.
Grumak caiu de joelhos, rolou para o lado… e se ergueu com os punhos ainda em brasas.
Sallira se desintegrou em pétalas negras.
Restava Velgran.
Parado, sem o machado, de armadura trincada.
Ele avançou.
Grumak também.
O choque foi um trovão no centro do campo. Punho contra punho. Força bruta. Velgran ainda era forte. Cada impacto reverberava nos ossos de Grumak como marteladas.
Mas dessa vez, ele controlava tudo.
Velgran tentou prendê-lo com um agarrão — e Grumak reagiu.
— Corrente Congelante.
Grumak girou o braço com firmeza, e correntes cristalinas de gelo se projetaram do chão, enroscando-se no braço do titã como serpentes congeladas. Velgran tentou romper os elos, mas antes que pudesse reagir, Grumak canalizou o vento pelas espirais de gelo — e então, inflamou tudo por dentro com o calor do fogo.
O choque térmico foi imediato. As correntes explodiram em fragmentos ofuscantes, lançando Velgran pelos ares.
A armadura estilhaçou.
Grumak avançou como um raio. Num salto, desferiu um soco ascendente, carregado de gelo e pedra. — E Velgran foi lançado ao chão.
O impacto explodiu no ar. A onda de choque varreu o campo.
Velgran se desfez em faíscas cinzas.
As cinzas das sombras derrotadas ainda flutuavam pelo ar.
Grumak ofegante, de joelhos, as mãos no solo. Cada músculo dolorido — mas ele permanecia firme.
Do outro lado do campo, o Eco-Sangrento observava.
E então... ele aplaudiu.
Um som seco, que ecoou pela arena.
— Impressionante, Grumak... — disse, a voz. — Você é, de fato, diferente dos últimos.
— Eles caíram em desespero. Você... luta como se o mundo dependesse disso.
Grumak se levantou devagar, os punhos cerrando com força.
— Talvez porque dependa.
O Eco-Sangrento sorriu.
— Então… veja minha verdadeira forma.
Sua aura explodiu. A terra tremeu. Cinzas e armas dos campeões derrotados foram absorvidos — adaga, arco, machado. fundiu ao seu corpo.
Ele cresceu.
Espinhos brotaram dos ombros.
Seis lâminas surgiram como asas.
Um braço extra empunhava o arco.
A máscara de Velgran virou couraça no peito.
Quatro olhos brilharam. —Era um túmulo vivo.
O Eco flutuava, cercado por redemoinhos de trevas.
— Vamos ver se sua história também será enterrada, Grumak.
O ar tremia.
Grumak limpou o sangue do rosto.
Se firmou.
— Você carrega os mortos.
— Eu… carrego os vivos.
E a última batalha começou.

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