Famintos, Martin e Clara permaneceram papeando até que, repentinamente, três marinheiros entraram no quarto com um carrinho e um aviso: estava na hora do rango. Eles trouxeram um caldeirão borbulhando, cheirando a algo suspeito, e o carregaram até um canto vazio, sendo encarados por todos presentes no salão. O marinheiro da frente, com uma concha nas mãos, deu uma pancada no caldeirão e disse a todo mundo:
— Muito bem, vocês aí a bordo. Nós três aqui vamos servir a primeira refeição do dia, entenderam? Aqueles que quiserem se estufar um pouco, antes de aportarmos em Goa pela manhã, venham aqui e façam uma fila indiana frente ao caldeirão. Eu aproveitaria se fosse vocês, afinal sabe-se lá quando irão poder comer de novo!
Não é preciso explicar que, dito isso, todos os tripulantes do salão foram direto à comida; mas foi exatamente isso o que aconteceu. Eles não tinham nenhum talher, é claro, apenas cumbucas de madeira e um apetite insaciável, mas isto era o suficiente e o ensopado se esgotava em uma velocidade alarmante.
— Ei, parece que estão servindo a janta. — comentou Martin.
Clara não ouviu nada disso, porque ela já estava a caminho da fila.
Logo, os dois se ajuntaram para a espera. E esperaram.
Esperaram por, pelo menos, uns sete ou dez minutos, até que outro aviso chegou.
“A comida acabou” — foi a parte mais importante. “Sorry” — também foi ouvido.
— Como assim acabou?! — questionou Clara, que era a próxima na fila.
— Ficamos sem comida bem depressa. — respondia o marinheiro — Cá entre nós, parece que há alguns tripulantes extras. Alguém anda petiscando na cozinha, às escondidas, e isso atrapalhou a nossa logística. Sinto muito, mas é a realidade no momento.
— Mas isso não é culpa nossa! — guinchou Clara.
— Também não é culpa minha. — disse o marinheiro. — Não tem mais sopa, e isso é tudo. Lamento.
Após isso, os marinheiros retiraram o carrinho. Clara continuou estática na fila.
— Você ouviu a conversa desse cara?! — a menina se virou para Martin.
— O que ele quis dizer com “Sorry”? — Martin comentava, disperso.
Clara deu um pescotapa nele. — Que mané Sorry, garoto! Ficamos sem janta!
— É, eu percebi.
— E você não liga?
— Ligo, claro. Mas essas coisas acontecem. Uma noite sem janta não vai te matar.
Clara se incomodou com o comentário, mas preferiu não dizer nada — até porque, depois do pescotapa, era a sua própria mão que estava vermelha e ardendo.
— Droga de viagem. — disse ela.
— Demorou demais para perceber isso. — pensou o rapaz.
Sem mais o que fazer, e com os bumbuns cansados de ficar sentado, a dupla recém formada se encostou às paredes, suspirando repressivamente. O estômago de Clara rugia.
— Não sei se vou aguentar.
— Você vai. Não seja tão melodramática.
— Mas será que não tem outro jeito? Qualquer jeito! Descascar batatas, roubá-las do estoque, eu não sei. Fuçar a bagagem de alguém não me parece má ideia.
— Escuta... você tá querendo que te joguem no mar, é?
— Não fariam isso comigo! — exclamou Clara. — Além do mais, eu tenho o meu bote.
— É bem capaz que te joguem ao mar, mas fiquem com o bote. Olha, eu acho que você deveria ir dormir. É mais fácil esquecer a fome com os olhos fechados, e além do mais...
O rapaz pausou, de repente, ao perceber que estava sendo ignorado.
A atenção de Clara, desta vez, estava em um sujeito bem ao lado deles.
Martin se surpreendeu porque, de alguma forma, ele não o havia notado antes: um sujeito alto — muito alto —, com um corpo magro e cabelos cintilantes de tom verde-lima. Suas mechas compridas chegavam à cintura, seu nariz era pontudo e seu semblante despreocupado. O misterioso homem vestia um par de luvas, um par de sandálias, um par de calças amarelo-mostarda e um par de suspensórios para suspendê-lo. Na cabeça, tinha um chapéu de couro, estilo vaqueiro, com três espelhos adornando a frente, e nada mais. Se questionarem sobre camisa: não vestia camisa. E talvez isso fosse o mais chamativo.
Ele era jovem, mas parecia consideravelmente mais velho que os dois — na faixa dos vinte e vários, como imaginou Martin. Nosso herói não tinha a menor ideia do porquê de Clara estar tão aficionada, mas esperou mais um tempo para ver no que ia dar.
— Ei, você da banana. — ela disse, angustiada.
— Mmm? — murmurou o homem, que mal havia notado a presença dos dois. A objeção sobre uma banana, de imediato, fez com que Martin reparasse na mão esquerda do sujeito: onde estava uma banana mordida. — Falou comigo? — a figura continuou.
Clara sequer piscou os olhos. — Posso saber onde foi que achou essa banana?
— Ah, isso aqui? — dizia o homem, e deu outra mordida. — Eu achei jogada pelo calçadão do porto, perto da rampa. Tava meio machucada, sabe, mas eu resolvi guardar em caso de emergência. Até que veio a calhar! Mas por que pergunta?
— Acontece que eu derrubei a banana. — disse a menina. — Essa banana, ela é minha.
Os dois se encararam, fixamente, por alguns segundos. Ele deu outra mordida.
— Quer parar com isso?!!! — Clara exclamou, impaciente. — Estou te dizendo, eu perdi essa banana! Passa ela para cá, vamos!
— Eu não. — o homem replicou solenemente.
— Por que não?! — reclamou Clara.
Neste instante, o visível chilique começou a chamar a atenção dos outros passageiros.
— Eu não tou acreditando nisso... — pensou Martin, tapando o seu rosto.
Mas a discussão não havia terminado.
— Porque! — continuava o homem, dando outra mordida. — Eu olhei muito bem, de um lado para o outro, para me certificar de que não tinha mais ninguém atrás da banana. Até perguntei, em voz alta, se alguém havia perdido. Se eu não pegasse a banana, ela seria esmagada no pavimento, não seria? E se eu não comer ela agora, vai estragar logo. A banana pode não ter sido minha no começo, mas eu fiz uma ação necessária! Para que a existência dessa banana não seja em vão, eu devo comê-la e não deixar com que seja desperdiçada.
— E daí, eu tou dizendo que é minha e pronto! Caiu da minha mochila!
— Mas e se você estiver mentindo? — ele deu outra mordida.
— PARA DE MORDER ESSA BANANA!
Visto que o olhar faminto de Clara, neste momento, era de dar pena, o articulado homem não viu outra solução a não ser entregar a fruta a alguém que precisasse mais dela do que ele. Martin ainda observava tudo, mas à distância, porque ele não queria ser relacionado com aqueles dois.
— Certo. Certo. Pode ficar com a banana.
Com cordialidade, Clara recebeu a fruta e a olhou de cima a baixo.
— Não quero essa banana mordida. — se apressou em dizer.
Tanto o homem, quanto Martin, ficaram sem reação.
— O que vai fazer, então, sua lunática? — Martin questionou com raiva.
— Comer a casca! — dizia Clara — É tudo o que sobrou, não é?
Sem qualquer hesitação, a menina fez o que devia (?) ser feito. Clara devorou a casca em segundos, mastigando as fibras como uma trituradora, e depois pausou.
— Ainda estou com fome.
— Esqueça que nos conhecemos. — Martin disse pelo lado.
O homem misterioso, por outro lado, não estava enraivecido ou indignado com nada disso. Seu sorriso “de boa na vida” traduzia muito bem a sua natureza aparente, e ele apenas acenou a cabeça diante daquela situação absurda e um pouco deprimente.
— Nada mau, camarada artística. Dizem que a casca da banana é a parte mais nutritiva. Mesmo assim, uma casca de banana não é a fruta completa. Toda essa discussão foi sem sentido e um pouco biruta, mas deixe eu amendar as coisas com isso, ok?
Futricando nos bolsos da calça, a figura arrancou de lá um broto pequeno.
— O que vai fazer com isso? —perguntou Clara, desconfiada.
— Nada demais. — disse o homem e, de um momento para o outro, o broto passou a trocar de mãos incessantemente; bailando conforme os braços da figura o moviam de um lado para o outro, em uma velocidade tão absurda que até Martin não pôde acompanhar.
Então abriu ambas as mãos. O broto havia sumido.
Clara, por conta da fome, sentia-se estranhamente cética.
— Quer que eu pergunte onde está, né?
— Eu não disse nada disso. — replicou o homem, quando, sem mexer um músculo, seu chapéu subitamente se ergueu em alguns centímetros, ficando suspenso no ar. — Por que você não checa? — a figura continuava.
Clara, que não era nada besta, checou mesmo. Para a sua surpresa (ou não), uma banana comicamente grande havia surgido debaixo do chapéu do homem. Que incrível!
Ela, contudo, não pensou muito a respeito, porque começou a descascar e comer a fruta imediatamente. Martin, por outro lado, ficou muito curioso e impressionado.
— Como você fez isso? — ele indagou ao desconhecido.
— Ah. Olá. — disse este. — São amigos? Você também quer uma?
— Não. Quero saber como você fez isso.
— Isso o que?
— A banana!
Com um sorriso misterioso, o homem dispensou a pergunta.
— Ah não... Não se preocupe com isso! É um segredo.
Martin resolveu não insistir.
— ...Já que é assim, também quero uma banana.
— Ah. Desculpe. Essa era a minha última, na verdade.
— Que ótimo.
Assim que o rapaz disse isto, o trio de marinheiros passou por eles, com o carrinho, se dirigindo com pressa à saída pela porta. Nisso, o sujeito ficou agitado.
— Pshh. Ouçam! Eu tive uma ideia! — dizia ele — Se ainda estiverem com fome, conheço um lugar onde ainda podemos tirar uma janta de graça! O que acham disso?
— Não é como se eu tivesse mais nada a perder sem ser a fome. — suspirou Martin.
— Você sabe onde tem mais comida?! — Clara interrompia. — Vamo nessa!
— Certo! Tá combinado, então! Venham comigo, mas com cuidado! E façam silêncio.
Foram seguindo a misteriosa figura porta à fora pelo salão, esgueirando-se entre as paredes, onde Clara e Martin acompanhavam os seus sorrateiros passos até a esquina de um longo corredor cuja bifurcação levava a outros dois corredores. Lá, o homem checava por trás de cada uma das quinas, rápido e tranquilamente, quando virou para trás e disse:
— Parece que não há ninguém por perto. Mas... por via das dúvidas, algum de vocês poderia me fazer o favor e ir lá checar?
— Por que você mesmo não faz isso? — Martin quis saber.
— Bom, é que... Digamos que eu já tenha causado alguns problemas no navio há alguns dias, Hahaha! — gargalhava o homem, coçando a nuca nervosamente. — Se me virem perambulando por aí, vão achar suspeito, com certeza. Me deem uma mão, sim?
— Que tipo de problemas? — questionou Clara.
— Bom, pode ser que eu já tenha feito isso aqui algumas vezes...
— Não é por sua causa que a gente não tem comida, então? — Martin voltou a dizer.
O homem parecia um tanto sem graça. — Bem... Sim! Acho que é por isso sim.
— Esquece. Deixa que eu dou uma olhada.
Martin olhou para ambos os lados, com seus olhos arregalados, mas não viu nada. Checou na quina dos corredores contrários, debaixo das portas e até mesmo no teto, mas no fim concluiu que não havia mesmo ninguém por perto. Então ele se virou para trás e acabou surpreendido pelos seus companheiros de garfo, que se esgueiravam impacientemente nas costas dele.
— Tudo limpo?
— Tudo limpo.
Livre de ameaças, o trio apressou-se até o fim do corredor e ouviu, com paciência, o plano do homem misterioso. “Nas últimas vezes, eu fui direto para o congelador.” Dizia ele. “Desta vez, vamos para uma caldeira. Por essa eles não vão esperar! E não acho que alguém vá estar de guarda porque, bom, é só uma caldeira. Os alimentos secos ficam por lá.”
Depois, foi questionado sobre como eles chegariam, magicamente, daquele corredor até à caldeira. Com a maior cautela que pôde, a figura deu um salto estupendo, agarrando a escotilha parafusada e a arrancando apenas com as mãos. Então apontou para cima, orgulhosa.
— Por aqui, vamos!
Clara chegou por perto de Martin. — Escuta. Esse cargueiro... não é de aço revestido?
O rapaz a mirou com olhos fantasmagóricos, e acenou a cabeça.
— Sim. Sim ele é.

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