Por um tempo, discutiram a respeito de quem iria primeiro na ventilação, já que o plano que o homem cochichava era o seguinte:
“Vamos usar essa escotilha para entrar na ventilação, e então rastejar até o quarto da caldeira. Não fica muito longe, é seguro, e dificilmente vão pegar nós três. Legal, né não?”
— Também acho que a Clara deveria ir primeiro. — opinou Martin.
— É o que eu acho, também. — dizia o homem — Ela é a menor e mais leve entre a gente. Se algo der errado, podemos ir de ré e trazê-la de volta. O contrário seria complicado.
— Eu já disse que não vou! — repetia Clara, parecendo indignada.
Martin pisou o chão, agoniado. — E por que você não nos diz o porquê, ou, sua doida?
— Vocês homens já nascem assim ou ficam LERDOS com o tempo?! — retrucou a menina. — Eu não vou engatinhar na frente de dois marmanjos num lugar apertado!
Martin preparou-se para dizer algo, mas acabou entendendo antes disso.
— Ah. — disse ele, sem graça. — Ok. Faz sentido.
— Claro que faz! Tão achando que eu sou uma sem-vergonha ou o que? — a menina se virou para o outro sujeito, mantendo o olhar irritado. — Tá entendido, ou, do chapéu?
Este já estava com metade do torso dentro da escotilha.
— Ah? — exclamou ele, com suas longas pernas balançando no ar. — Olha! O caminho está limpo! Quem for ir depois de mim, agarra o meu calcanhar!
Martin foi primeiro, e Clara foi depois.
Entubados, a jornada até a caldeira continuou com certa dificuldade. No começo, engatinhar pela tubulação era fácil, mas, conforme eles avançaram, o caminho foi se tornando mais e mais estreito até que se tornou uma batalha rastejar pelos tubos mantendo silêncio e sem tomar pausas (já que a estrutura da tubulação não reagia muito bem, sempre que o trio parava por muito tempo em uma sessão da ventilação). Julgando pela distância, eles chegariam até a caldeira em cerca de dez minutos, mas, devido a complexidade de algumas salas onde o caminho era mais estreito, tomaram uns quinze ou vinte minutos para alcançar a última etapa da viagem, e também a mais perigosa: a ventilação do dormitório dos marinheiros.
— Agora a coisa fica complicada. — disse o jovem homem. A ventilação deste quarto, diferente das outras, tinha uma tubulação externa e que cruzava bem o meio do salão. Isto significava que, ao invés de rastejar por trás das paredes e do teto, o trio estaria ativamente passando por dentro de uma tubulação massiva e externa — cuja os marinheiros podiam ver, tocar e até mesmo investigar em caso de suspeita.
Se algo acontecesse, no meio do caminho, o trio estaria indefeso.
— Vamos com muita cautela, e tentem não bater os pés nas laterais do tubo. Tem marinheiros dormindo ali em baixo. Não podemos acordá-los de jeito nenhum.
— Acha que vão acordar facilmente? — perguntou Martin.
— Sim, muito! — o homem acenou com a cabeça. — O mar é um lugar muito perigoso, e por isso os marinheiros tem um sono bem leve. Eles estão preparados para imprevistos.
Clara, por outro lado, soltava um bocejo. — Olha, a gente já está chegando? Santo Nepalin... Acho que nunca passei tanto calor na minha vida. Quero ir embora daqui!
— Paciência! Estamos quase lá. Vamos avançar primeiro.
Os primeiros três passos foram tranquilos e, por incrível que pareça, o quarto não se distanciou muito. Devagarinho, o trio ia avançando, e tudo parecia ir bem: até que Clara, subitamente, parou de caminhar, sentindo um estranho formigamento no braço. Ela não disse nada, e muito menos disse Martin. O rapaz simplesmente olhou para trás e, com uma encarada afiada, notou algo pequeno, amarelo e com uma quantia significativa de pernas, sentado na mão de Clara. Ele procurou não se desesperar, e puxou os sapatos do colega da frente, que olhou para trás, inquisitivo, tentando entender o problema às mudas.
Se pudesse ver atrás de Martin, ele diria “Ah. É só um escorpião tropical. Coisa boba!”
Mas um fato é que ele não podia; e outro fato é que Clara estava “com o cobre na mão.”
Conforme a criaturinha se mexia, a menina gritava para dentro, tentando gesticular com os olhos e implorando espiritualmente que alguém a ajudasse. Martin tentou usar as mãos, mas o tubo era muito apertado para isso. O ronco dos marinheiros, ali em baixo, acelerava toda a situação; o pânico foi escalando, e o balançar do barco aumentando, até que aquilo aconteceu. Em uma das tentativas de ajudar, Martin cutucou o escorpião com seu mindinho. A reação do artrópode foi colocar o seu ferrão para fora imediatamente.
Daí, não teve jeito.
— GHYAAA!!! — berrou Clara. E o fez de tal maneira que, em menos de dois segundos, três ou quatro marinheiros também acordaram gritando. Um deles, como menininha.
Antes de entender a situação, o jovem homem disse o que era importante:
— Recuar! Recuar! Recuar!
Mas, no cômodo abaixo, dúzias de homens exaustos acordavam: eufóricos e desesperados, saltando dos beliches e apanhando facas, sabres e bacamartes. Eles procuravam pela origem do barulho e, acreditem, dado o sacode-sacode que acontecia na ventilação bem acima deles, isso não foi algo difícil de encontrar.
— MATA! MATA! — dizia Clara, tentando engatinhar de ré. — ELE TÁ ALI! NÃO, AQUI!
— Como quer que eu mate de costas??! — exclamou Martin, disfarçando o desespero.
O terceiro estava rindo.
— Hahaha! TODO mundo acordou ali em baixo! Que problemão!!!
— N, NÃO tem graça nenhuma!!! — Clara reclamava — E isso foi ideia sua!!!
— E o que é que vocês encontraram aí mesmo?
— É um escorpião amarelo!!! O pior de todos!!!
— Uh... Isso é mal.
Ao dizer isso, o rosto de Clara empalideceu.
— T, TÁ NO SEU CHAPÉU! — gritou ela.
O homem jogou os olhos para cima, despreocupado. — Hã?
— Cara! — logo dizia Martin — É verdade, tá no seu chapéu!
O homem inclinou, sacudiu a cabeça e, assim que o escorpião acertou o chão do tubo... — BAM! — esmagou-o com um soco martelo, sem mais nem menos. Do ponto de vista do dormitório, os marinheiros tomaram um susto gigantesco ao ver o metal revestido do tubo amassar de repente. Martin e Clara observaram em um silêncio aterrador.
— Prontinho! — então disse a figura, sorrindo. — Agora está tudo bem!
Mas assim que o disse, toda a tubulação tremeu, porque agora os marinheiros a alvejavam com pancadas de tudo o que era jeito. Eles sequer eram altos o suficiente para alcançar a ventilação, mas, visto que se sentiam ameaçados, subiram uns aos outros e formaram uma torre humana com o único propósito de encher o invasor de porradas.
— Ei, ei! VAMOS EMBORA LOGO! — dizia Martin, cedendo à situação, e sua barriga foi alvejada por uma poderosa pancada do que parecia ser uma maça de aço.
— AI, AI, AI! — gritava Clara, que se sentia dentro dum tambor. — PAREM COM ISSO! TÃO ME MACHUCANDO, SEU BANDO DE CORNO, JUMENTOS, FILHOS DE RAPARIGA!
Eles ouviram um dizer abafado: “Não fala de minha maínha!” — e então houve uma pancada mais forte do que as outras (que acertou, indiretamente, a costela de Martin).
— É melhor não provocarmos eles! — opinou o jovem homem.
— ...Eu concordo... — quase sem ar, Martin rebateu.
A violência continuou por mais alguns segundos, conforme as três figuras engatinhavam por suas vidas, até que um estrondoso barulho ecoou, dos confins do navio, atingindo o dormitório como um rugido extremamente preocupante. Isto foi o suficiente para chamar a atenção dos marinheiros, que desfizeram sua torre humana, cochichando uns com os outros de maneira muito ansiosa. Um toque-toque vem à porta, e alguém entra no quarto gritando e pedindo por ajuda. Os marinheiros se dispersam rapidamente, mas nossas figuras ficam. Por conta dos golpes, seus ouvidos ainda apitavam, e eles não conseguiram entender quase nada do que tinha sido dito lá em baixo. Só sabiam que era algo bizarro e aparentemente muito sério.
— O que foi aquilo? — Martin comentou, atordoado.
— Eu não sei. — dizia o homem — Talvez algum incidente de bordo?
Mas Clara, dolorida como estava, já tinha ficado sem paciência.
— DANE-SE! COMIDA! VAI, VAI, VAI!
Eles foram, e o caminho não foi longo . . . . . . . . .

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