Assim que chegaram à sala da caldeira, o homem chutou a escotilha e todos desceram em velocidade relâmpago. A ansiedade por comer alguma coisa já era maior do que a fome em si, e o trio pôs-se a vasculhar as gavetas. Havia mais grãos e massas do que qualquer outra coisa, mas, como o autor do plano havia sugerido antes, também havia carnes, frutas e legumes desidratados; assim como algumas conservas bem salgadas e apetitosas. Cada um pegou o que lhes agradava, serviram-se em uma tampa de panela e, com um sorriso no rosto (à exceção de Martin, que tinha um pseudo sorriso), puseram-se a comer contentemente.
O homem misterioso era fã de picles, e estava comendo um crocante quando disse:
— Haha! Parece que deu tudo certo afinal! Eu não disse?
— Bem, isso é verdade, mas... — dizia Martin — você foi o primeiro a dizer “recuar” quando a coisa apertou. E o grito que essa escandalosa deu também não ajudou em nada.
Clara quase se engasgou com sua carne seca.
— É o que? A culpa agora é minha, então?
Martin evitou os olhos dela. — Se a carapuça serve...
— Humph. — ela esnobou. — Você também tava cagando de medo, que eu sei.
— Como é?
— CA-GAN-DO. — repetiu Clara. — Morrendo de medo. Subiu uma catinga ali atrás!
— Só se for a sua! Aposto que é por isso que você não quis ir na frente!
— Repete isso, ou, aristocrata de viela!
Os dois começaram a disputar as forças em uma lutinha de criança.
— Gente, estamos comendo... — disse o jovem homem.
Clara enfiou um indicador molhado na orelha de Martin.
— Você não se mete, seu... hã...!
Martin contra atacou com o mesmo ataque, mas mirou nas duas orelhas.
— Qual que é o seu nome, mesmo? — ele perguntou.
— Tim!
— Tim? — os dois disseram em coro.
— Isto mesmo. Tim! Meu nome é Tim Impares.
Clara cutucou Martin no ombro. — É um bom nome, né?
Ele acenou com a cabeça. — Até que sim. Combina com ele.
Tim mordiscava uma fatia de jabá.
— Acham mesmo? Obrigado! E vocês são Clava e Marcos, não é isso?
— Eu sou Martin....
— Me chamo Clara...
— Foi o que eu disse!
— Não foi não.
De repente, Martin sentiu uma estranha quentura por debaixo dos pés.
Ao olhar para os seus sapatos, o rapaz se assustou e deu um salto.
— EI, QUE DROGA É ESSA?
Clara se assustou com a reação. — O que foi, menino?!
Ela estava para dizer algo, quando também sentiu os pés queimando.
Tim os puxou para cima dos caixotes, com um olhar preocupado.
— ...O que é isso?...
Era lava. Pura, honesta e escaldante.
Tão quente como imaginável, uma fina camada de lava derretida agora invadia a caldeira, rastejando por debaixo da porta e deixando um rastro de fogo para trás.
— Lava! — exclamou Martin, espantado, pois só isso lhe veio à cabeça.
Tim coçou o próprio queixo. — Sim, lava! Mas como, no meio do oceano...?
Um cheiro de enxofre subia pelo ar, e a trilha de lava se aproximava, cada vez mais, da caldeira acesa, carregada de inflamáveis. Clara abriu a porta da sala com um chutão.
— Tou satisfeita. — disse ela. — Vamos embora daqui, logo!
Então, saíram correndo, corredor afora, saltando entre as labaredas e contemplando uma realidade que ninguém poderia imaginar. Justo quando todos terminaram a janta, se sentindo finalmente prontos para a cama, o Piston Pucker ardia; ardia como nunca havia ardido, nem mesmo quando o seu metal foi fundido. Debaixo da tempestade que caía lá fora, a enorme estrutura do cargueiro, agora, estava em chamas; os corredores cheios de lava, suas válvulas derretendo e seus pistões caindo aos pedaços dentro do abismo do mar.
Pessoas corriam por todos os lados, pedindo socorro; mas a maioria dos tripulantes se armava e corria em direção ao convés, onde algo enorme e incandescente se erguia.
Martin, Tim e Clara se incluíam nessa multidão.
Durante sua corrida, eles ouviam os gritos abafados pelas chamas:
“É enorme, e está queimando tudo!”
À direita do trio, um pilar incandescente varreu um quarto com uma pancada.
“É um monstro de chamas! Um demônio! Estamos perdidos!”
“Não desista ainda! A Marinha de WC está tentando extingui-lo!”
Algo rugiu do lado de fora do navio, e ouviram o som do mastro despencando no mar.
“Não! Não adianta, você não entende! A embarcação já era!”
“VAMOS MORRER!”
Houve o som de alguém sacando uma espada.
“Não sem levar esse desgraçado junto!”
Então chegaram ao fim de um corredor que levava ao convés.
Tim arrombou a porta com uma cotovelada, liberando uma nuvem de fumo negro.
A chuva embaçava a visão, mas o trio se recompôs sobre as tábuas molhadas, esfregou os olhos e tentou desembaralhar a paisagem. Martin, que tinha a visão mais aguçada, foi o primeiro a entender com clareza o inferno que estava diante dos seus olhos.
— Merda. — foi tudo o que ele conseguiu dizer.
A tempestade rugia. As ondas transbordavam para dentro do cargueiro, atraíam raios e jorradas de água fria surravam o convés e os tripulantes. Todos tentavam combater as chamas o tão bem quanto podiam, mas havia algo estranho. Os pilares incandescentes, as chamas, o líquido escaldante que escorria pelo convés... Nada daquilo era natural. Martin procurou pela razão com seus olhos, mas não demorou nada até que uma súbita queda entre as ondas revelou a parede incandescente e assombrosa que ele jamais esqueceria.
Era uma criatura colossal; um molusco feito de lava; um diabo vulcânico do abismo.
Era difícil se dar conta do tamanho, já que o seu corpo era tão grande quanto o próprio navio. Com movimentos lentos, o monstro mirava os tentáculos com frieza, e então despencava-os em golpes catastróficos que destrinchavam o Piston Pucker como faca na manteiga. Seus focos de chama cobriam a embarcação por inteiro, e os valentes tripulantes sequer sabiam como, ou por onde combater aquela assombração titânica e incandescente.
Sem dizer nada, Tim chamou Martin com um sinal e carregou Clara com o outro braço. Ele corria para o sentido leste do convés, na direção de um grupo específico de tripulantes. O jovem homem era veloz, atravessando as labaredas e saltando as fendas que se abriam no chão conforme a madeira rachava e carbonizava. Tim estava muito perto de alcançar seu objetivo quando, de repente, uma enorme viga de suporte caiu flamejante diante deles. Uma nuvem de brasas foi expulsada na direção do trio, e Martin quase não tapou os olhos a tempo. No mesmo instante, uma explosão gigantesca eclodiu do bolbo esquerdo do cargueiro, fazendo com que o mesmo afundasse cada vez mais rápido.
Eles estavam cercados, próximos às chamas e, agora, deslizando entre as tábuas.
Tim já se preparava para agarrar os dois colegas e saltar para dentro do fogo, como um último recurso, mas, antes disto, uma poderosa intervenção surgiu diante do trio.
Era um jato. Um poderosíssimo jato d´água irrompeu detrás das cortinas de chamas, apagando a lavareda e as chamas do pilar; o que fez erguer uma gigantesca nuvem de vapor no horizonte tempestuoso. Do outro lado da cortina, apareceu um homem alto, vestindo uma armadura dourada. Ele arremessou uma corda. Tim a agarrou e foram puxados até a parte semi intacta do convés, onde a maioria dos tripulantes mais fortes se reuniam.
— Essa foi por pouco! — exclamava o cavaleiro, de silhueta escura e uma bondosa e imponente postura. — Todos estão bem?
— Estamos bem! — disse Tim, sem perceber que Clara havia desmaiado e Martin, depois de ingerir tanta fumaça, tentando acompanha-lo, já estava todo sem fôlego.
O rapaz ficou com Clara nos braços, enquanto Tim se afastou para ajudar os outros guerreiros. Ao recuperar o fôlego e os sentidos, Martin não viu outra alternativa senão observar as ruínas do Pucker e se perguntar se este seria, mesmo, o fim prematuro da vida.
“Não tem nada que eu possa fazer...” — ele pensou, desesperado. “Nada.”
À uma distância absurda, Martin pôde ver uma fileira de raios atingindo o horizonte. Eles iluminavam a silhueta de três montanhas titânicas, que o rapaz pensou ter imaginado.
Em seus últimos instantes conscientes, a Lâmina do Zelador estava fora da bainha.
Ela apontava para o inimigo: grande, imponente e escaldante só de olhar.
Algo escuro, pegajoso e folheado envolveu seu corpo e sua vista de repente, e ele viu as costas de Tim; seus cabelos voando com o vento; depois, apenas o abismo escuro.
O Piston Pucker envergou,
e houve gritos.
Então raios,
e então silêncio.
A embarcação, depois daquela noite, nunca mais seria vista.

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