A fogueira crepitava em brasas baixas no centro da cabana. Lá fora, a noite se espalhava limpa e silenciosa, bordada de estrelas. A brisa das montanhas descia gelada, mas não cruel. Helster e Shiro estavam sentados na varanda de madeira, cobertos até os ombros por mantas simples. O mundo parecia suspenso no tempo.
Helster quebrou o silêncio com a voz baixa:
— Ei… Shiro.
— Hm?
— Aquela coisa na caverna. A sombra. Eu... consegui vencê-la.
Shiro virou o rosto, atento.
— Sério?
Helster assentiu, os olhos perdidos no céu.
— Não foi bonito. Nem rápido. Ela me mostrou tudo que eu odiava em mim. Me chamou de inútil. Disse que você e os outros só me carregavam...
— Mas no fim... eu gritei com ela. Mais alto do que a voz dela. Quando a escuridão tentou me engolir... fui mais teimoso que ela.
Shiro soltou um sorriso cansado.
— Heh… isso é bem a sua cara.
Helster riu também.
— E você? Conseguiu?
O sorriso desapareceu.
Shiro olhou para as próprias mãos — ainda tremiam.
— Consegui…, mas não do jeito certo.
— Como assim?
Shiro respirou fundo, o peito pesado.
— Eu deixei a raiva me guiar. Quando vi aquela versão distorcida de mim... algo dentro de mim quebrou. E quando saí da caverna... eu estava cego. Ataquei o Alvim. Quase perdi o controle.
Helster ficou sério.
— Mas você voltou. Não ficou lá.
Shiro assentiu devagar.
— Sim. Mas eu não posso deixar isso acontecer de novo. Essa raiva... é poderosa. Mas se eu me entregar a ela, vou me tornar o que lutei.
Silêncio. Só o vento. Só o frio.
Helster então esticou o braço e deu uma tapinha firme no ombro do amigo.
— Ei... você ainda é você. E se esquecer disso, eu tô aqui pra te lembrar.
Shiro sorriu — um sorriso real, mesmo que curto.
— Obrigado, Helster.
A madrugada avançava. Helster dormia no canto da sala, enfiado nas cobertas como um javali em feno. Mas Shiro, acordado, olhava para o teto. Aquele silêncio da floresta fazia os pensamentos ecoarem mais alto.
Ele sentia as garras de novo.
Sentia a fúria dormindo dentro dele, esperando um motivo pra acordar.
Saiu da casa em silêncio.
O frio o recebeu com um abraço úmido e o cheiro de madeira molhada. As árvores ao redor sussurravam segredos antigos. As estrelas, indiferentes, vigiavam lá de cima.
Sentado numa pedra perto da cabana, como se já o esperasse, estava Alvim.
O velho urso negro o observava com olhos calmos e firmes. Um manto simples o cobria, mas a energia que o rodeava pulsava viva, como uma fogueira que nunca apaga.
— Pensou que eu estaria dormindo? — disse, sem tirar os olhos do céu.
Shiro caminhou até ele.
— Parte de mim esperava que sim. A outra... sabia que estaria aqui.
Alvim apontou para o espaço ao lado. Shiro sentou. O silêncio entre eles foi mais confortável do que qualquer palavra.
— Sobre antes... — começou Shiro.
— Você ainda tá remoendo a provocação — cortou Alvim, tranquilo.
— Você falou do meu pai. Disse que ele era fraco.
Alvim respirou fundo.
— Falei porque precisava te puxar pra fora de onde você se esconde.
Não porque eu acreditava naquilo. Mas porque sabia o que viria depois.
Shiro estreitou os olhos.
— Você queria que eu perdesse o controle?
Alvim encarou o céu.
— Queria ver o que você faria ao perdê-lo.
Fez-se silêncio.
Então a voz de Alvim desceu mais grave. Mais pessoal.
— Porque eu… também fui como você.
Shiro ficou imóvel. Alvim olhou para ele — e dessa vez, sem a máscara de mestre. Apenas um velho carregando um fardo antigo.
— Quando jovem, meu poder também nascia da fúria. Era bruto. Caótico.
Meu pai era, meu mestre. Rígido. Justo. Um líder.
— Ele queria que eu o sucedesse como protetor da vila.
Alvim olhou para as próprias mãos.
— Mas eu... era teimoso. Orgulhoso. E num treino… eu perdi o controle. Me transformei. Quando voltei a mim… meu pai estava morto. E dois irmãos que tentaram me conter, também.
A confissão caiu como pedra.
Shiro nem respirava.
— Desde então, eu jurei que nunca deixaria outro seguir o mesmo caminho sem orientação. Quando vi você… vi o mesmo fogo. E jurei que ia te guiar.
Shiro murmurou:
— Eu quase machuquei você hoje.
Alvim riu fraco.
— Você não conseguiria.
Shiro riu também, sem graça.
— Mas e se for outra pessoa, um dia? Alguém que não saiba se defender?
— Então aprenda. Treine. Cresça.
Seja o guerreiro que seu pai acreditava que você podia ser.
E o guardião que o mundo vai precisar.
Shiro fechou os olhos.
As palavras não doíam.
Elas ficavam.
Ele se levantou devagar e olhou para o céu escuro mais uma vez.
— Obrigado, Alvim. Eu não vou esquecer.
O velho assentiu.
— Espero que não. Porque o que você sente agora... é o primeiro passo da verdadeira força.
Shiro se virou para voltar. Já dava o primeiro passo quando ouviu a voz do mestre mais uma vez:
— Descansem bem.
Amanhã cedo, vamos descer a trilha.
Quero apresentar vocês a alguém importante... numa cidade próxima.
Shiro parou. O vento soprou entre as árvores, carregando promessas.
Ele não respondeu.
Apenas sorriu.
E caminhou de volta para a casa.
O primeiro raio de sol mal tocara o telhado da cabana quando a porta rangeu.
Shiro abriu os olhos num susto; Helster, ainda meio afogado em cobertas, soltou um ronco confuso.
Lá fora, Alvim já os esperava, imponente como um rochedo coberto de névoa, braços cruzados e paciência de quem não se deixa atrasar nem pelo tempo.
— Levantem-se, preguiçosos. Hoje não treinaremos espadas nem escudos — avisou, voz grave —, mas vamos caminhar até a vila de Rastros-Sangue. Lá, vocês conhecerão alguém importante. E chegarão prontos ou chegarão mortos de cansaço, decidam.
Helster esfregou o rosto.
— Então é só... caminhada?
— Cenho erguido, javali. — Alvim apontou com a garra. — Vocês vão canalizar energia o caminho inteiro. Se a largarem, voltamos ao ponto zero.
Shiro sentiu o estômago afundar: canalizar enquanto andava era como correr segurando um copo cheio d’água — qualquer vacilo e tudo transbordava em fúria ou exaustão.
A trilha mergulhava num corredor de pinheiros cobertos de musgo. O ar cheirava a gelo derretendo.
Shiro puxou a respiração, focalizando a chama branca no centro do peito.
Helster fez o mesmo, mas a energia dele era um murmúrio terrestre — uma pulsação lenta que subia dos pés ao escudo imaginário no coração.
— Passos curtos, ritmo de montanha — instruiu Alvim enquanto tomava a dianteira. — Se o pulso correr mais rápido que a mente, vocês tropeçam.
Primeiros trezentos metros: tranquilos.
Metade de uma colina: Shiro já sentia a raiva borbulhar entre as costelas, pedindo para virar garra. Helster, suando, tinha os ombros tremendo — a energia de proteção exigia músculos firmes que insistiam em queimar.
Alvim não olhava para trás, mas era como se enxergasse cada vacilo.
— Shiro, teu fogo tá subindo pro pescoço. Desce isso pros calcanhares!
— Helster, teu escudo tá pesado demais. Respira no abdômen e solta nos ombros, não nas mãos!
Ambos ajustaram. O ar ficou mais leve… por trinta segundos, antes da trilha empinar de novo.
A mata se estreitou, obrigando-os a passar por raízes grossas. A cada passo em falso, a energia chacoalhava. Shiro quase perdeu o foco quando um galho riscou sua perna — a raiva ferveu, mas ele lembrou da noite anterior: respira, aguenta, mais um passo. Canalizou o fogo para os quadris, pé firme.
Helster escorregou num limo úmido e bateu o joelho. A dor sacudiu o fluxo defensivo; por um segundo sentiu medo de quebrar. Alvim agachou-se ao lado, sem piedade nem afeto, apenas certeza:
— Dói? Ótimo. A dor é um sino que te avisa onde o muro está rachando. Fecha a rachadura com respiração curta e constante.
Helster cerrou os dentes, levantou e voltou ao ritmo.
Ao meio-dia, alcançaram uma garganta estreita onde o vento soprava como lâminas frias. Era impossível falar sem que as palavras virassem vapor.
Alvim esticou o braço:
— Aqui a pressão muda. Foquem no coração lento. Cada batida é um passo.
Shiro sentia o peito queimar; a chama branca tremulava, quase se apagando. Visualizou o rosto do pai, o conselho da mãe; deixou que a chama recuasse até virar brasa — menos luz, mais calor constante. Continuou.
Helster imaginou seu escudo interior formando placas sobre a pele; cada rajada de vento batia nelas e se partia. Avançou um metro, depois dois, depois perdeu a conta.
Quando emergiram do outro lado, a visão de um vale esmeralda se abriu — e, ao fundo, as primeiras chaminés de Rastros-Sangue soltavam filetes de fumaça cinza.
Alvim finalmente parou. Virou-se, avaliando os dois como ferreiro mede lâmina nova.
— Não é perfeito, mas vocês não quebraram. — Deu um meio sorriso. — Isso é mais do que a maioria faz.
Shiro caiu sentado, o suor misturado ao pó do caminho, mas a chama ainda viva no peito — pequena, obediente. Helster largou-se de costas na grama, rindo de alívio; o escudo interior pulsava, mas não o esmagava mais.
— Levantem — disse Alvim, a sombra cobrindo os dois como árvore antiga. — A vila está a um sopro, e o destino não gosta de esperar. Lá dentro… conhecerão quem vai empurrar vocês além do que acham possível.
Shiro ergueu o olhar para as casas distantes.
Algo dentro dele — talvez a própria brasa — palpitou em expectativa e medo.
Helster se pôs de pé, batendo a terra das roupas.
— Quem é essa pessoa tão importante?
Alvim caminhou sem responder, apenas soltou, por sobre o ombro:
— Descubram quando chegarmos. Até lá, continuem canalizando. Se a energia morrer… recomeçamos desde a cabana.
E, sob a luz dourada da tarde, os três seguiram colina abaixo — cada passo selado por um juramento silencioso: respira… aguenta… mais um passo.
A vila apareceu entre a névoa como um sussurro velho, escondido entre colinas musgosas e árvores de casca grossa. Muralhas de madeira protegiam a entrada, esculpidas com símbolos ancestrais que vibravam numa frequência baixa, quase como um zumbido no peito.
Shiro e Helster pararam por um instante diante do portão.
— Isso aqui... — Helster olhou ao redor — parece ter sido feito muito antes da gente nascer.
— Muito antes de quase todo mundo — murmurou Alvim, e empurrou o portão com a garra. — Entrem. Mas com respeito.
Dentro, a vila viva.
Seres de diferentes raças — todos semi-humanos — caminhavam entre casas de pedra e madeira. Havia homens com chifres em espiral, mulheres de pele musgosa, crianças com olhos felinos e membros alongados.
Mas ninguém parava. Todos olhavam.
Como se soubessem.
Shiro sentiu o peso dos olhares, mas não recuou.
Helster, mesmo desconfortável, firmou o passo.
— Onde é que você trouxe a gente, Alvim? — sussurrou.
— Ao lugar onde eu fui salvo.
Eles atravessaram ruelas estreitas, trilhas entre casas antigas cobertas por musgo, folhas e símbolos pintados à mão. Até pararem diante de uma cabana encurvada, onde galhos vivos se entrelaçavam ao teto, como se a floresta a abraçasse.
— Entrem — disse Alvim.
Shiro entrou primeiro. E parou.
Lá dentro, iluminada por cristais âmbar pendurados no teto, estava uma figura sentada ne uma cadeira perto de um caldeirão.
Os pelos era como pedra de luar, os cabelos prateados trançados com folhas e contas antigas. Os olhos, dourado opaco, pareciam ver através da carne.
Mas o que mais chamou atenção…
era o quanto ela se parecia com Malias.
Shiro piscou, confuso. Helster ficou imóvel, engolindo em seco.
— Você tá vendo…?
— Tô.
A Lupina levantou-se devagar, como se o tempo se curvasse junto a ela.
— Então estes… são os dois que você trouxe — disse ela, olhando para Alvim com um meio sorriso.
A voz era suave e profunda. Como água correndo em pedra.
Alvim pigarreou.
— Lysara. Eles se chamam Shiro e Helster. Vieram por… recomendação.
Ela estreitou os olhos.
— Recomendação… de quem?
Alvim hesitou. Engoliu em seco.
— De… Farlan.
O sorriso dela cresceu, divertido, quase zombeteiro.
— Farlan… aquele guiado por Makar?
Shiro franziu o cenho. Não entendeu a referência, mas o nome soou antigo. Importante.
Lysara então caminhou até Alvim — e o cutucou no peito com o indicador fino e firme.
— E olha só... o velho urso ainda se curva quando me vê.
Você cresceu, Alvim. Mas ainda anda com as costas tortas de culpa.
Alvim baixou o olhar, visivelmente desconfortável.
— Esses dois… não são só garotos. Eles precisam de orientação. Eu os trouxe aqui por causa do que você fez por mim. Anos atrás. Depois de... tudo.
— Depois dos acontecimentos.
A cabana congelou por um instante.
Helster se moveu, mas Shiro colocou a mão no braço dele.
Lysara, então, suspirou.
— Eu não mencionei pra ferir. Só pra lembrar de onde vem sua estrada.
Esses dois — ela se virou para Shiro e Helster — carregam o mesmo estopim dentro deles.
Raiva, medo, força mal resolvida.
E se não aprenderem a moldar… serão tragados, como tantos outros.
Ela caminhou ao redor de Shiro.
— Você... já sentiu ela, não foi? A fera dentro de você. As garras. O sangue quente demais.
E você, escudo... — virou-se para Helster — carrega o peso do mundo nos ombros. Até quando ninguém te pediu.
Os dois permaneceram em silêncio.
Lysara deu meia-volta.
— Bom. Eles não são de se esconder.
Ela andou até o canto da cabana, pegou uma pequena tigela com cristais verdes e jogou no caldeirão. Vapor subiu, e um cheiro de erva adocicada se espalhou.
— Vão descansar. Hoje, só os observei.
Shiro, antes de sair, não resistiu.
— Senhora… posso perguntar algo?
Ela olhou por sobre o ombro.
— Diga.
— Você… é da mesma raça que… Malias?
Lysara sorriu de lado. Mas o olhar endureceu.
— Malias, filha de Malvina.
Ela voltou o rosto para o caldeirão.
— Mais do que raça. Ela é… da minha linhagem.
Shiro estremeceu.
Helster olhou para ele — algo importante estava se desenhando ali.
Mais do que eles podiam entender.
Alvim quebrou o momento.
— Chega por hoje. Amanhã vocês conhecerão o que significa treinar de verdade.
— E até lá — disse Lysara, já sentada outra vez — não percam tempo com perguntas sem coragem pra ouvir as respostas.
A noite caiu sobre a cabana. E dentro dela, o peso do passado e do futuro começou a se alinhar.
Quando os dois jovens adormeceram, Alvim permaneceu junto à fogueira. Lysara, sentada ao seu lado, olhava o fogo com olhos distantes.
— Meu tempo está se esvaindo, Alvim... como brisa ao fim do inverno.
Ele se calou. Sabia.
— Esses dois... são escolhidos — ela continuou. — Mas falta o terceiro. Aquele que carrega a luva de Makar. Ainda preciso entregar algo a ele. E à descendente que caminha ao seu lado. Os novos tempos já começaram. E esses... serão mais fortes que os antigos.
Alvim inclinou a cabeça.
— Posso mandar mensagem a Farlan. Pedir que envie o último.
Lysara negou com um suspiro.
— Ainda não. Ele virá... quando o tempo souber. E não antes.

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