O sol brilhava e os pássaros anunciavam o início da manhã. Após um café com pães caseiros e acompanhamentos frescos, os quatro homens iniciaram, num tom melancólico, uma breve divagação sobre quais seriam os próximos passos para expor o conteúdo incriminatório no pendrive.
— Quando voltarmos, deveríamos contatar algum jornalista confiável — disse Wendel.
— Jornalista confiável? — Davi arqueou uma sobrancelha. — Alguém conhece um?
— Acha que não tentei? Foram logo subornados. Alguns até viraram parceiros do outro lado, como advogados comprados. — Raziel suspirou, os ombros caindo.
— Hoje em dia a gente pode divulgar sozinhos, pela internet — sugeriu Miguel.
Raziel balançou a cabeça. — Pode ser perigoso demais para vocês...
— Ora! Perigoso já está sendo — cortou Wendel. — Precisamos mudar o jogo. Não dá pra se esconder pra sempre, Raziel.
Quando perceberam que não chegariam a um consenso, se dispersaram para arrumar as coisas. Todos, exceto Miguel. Apesar da urgência de voltar para Eloise, ele não quis se afastar do pai, Raziel. “Poxa, ela já é grandinha e pode se cuidar”, pensou, tentando aliviar a culpa. Miguel se despediu de Wendel, mas ao se afastar de Davi, ficou amuado como quem vê a pessoa amada partir.
Foi então que Davi e Wendel entraram na van e seguiram pela estrada. Viajaram sob a urgência silenciosa da manhã. Chegaram sob a luz da lua; Wendel se certificou de que Davi havia entrado em seu apartamento e seguiu seu rumo. Davi relaxou num banho quente, tentando dissolver a tensão e o medo que a partida de Miguel lhe havia plantado. Foi preparar um café. Enquanto esperava, pegou o celular e congelou…
Um e-mail.
Pior que spam.
Um convite inesperado de Breno:
“Vamos conversar. Só nós dois. Na ‘Taverna da Rua Baker’, às 13h. Não se atrase.
De: Breno Vieira
P.S.: Não conte a ninguém.”
O convite cheirava a armadilha. Não podia ser outra coisa. O bom senso gritava para ignorar, mas o desejo de proteger seu mentor era mais forte do que a sua própria sobrevivência. A quebra de confiança por parte dele poderia ser terrível, porém Davi não imaginava o que viria.
Na manhã seguinte, chamou um carro de aplicativo e foi ao local, chegando dez minutos antes do horário marcado. Não contou a ninguém. Ninguém precisava saber que ele estava arriscando tudo apenas para descobrir se Breno sabia o paradeiro de Raziel.
O bar “Taverna da Rua Baker” era um lugar animado, mas naquele dia era silencioso e tenso. O ambiente tinha uma atmosfera sombria, e o cheiro de café forte lhe trazia uma certa coragem. No balcão, Sayuri estava de pé. Ela o observava, com as mãos na bancada, com um olhar que Davi reconhecia: uma amiga, a mais impotente. Ele sabia que ela estava ali por ele, mas a armadilha de Breno era grande demais para um olhar acolhedor.
Breno já o aguardava, com uma garrafa de vinho aberta à frente enquanto uma trilha sonora suave enchia o ambiente.
— Veio sozinho? — perguntou, com um sorriso fino.
— Obviamente. Você queria algo particular, não?
— Você é esperto ou só impulsivo?
— Depende do que você vai tentar me convencer.
A conversa entre eles seguiu densa. Breno oscilava entre justificativas cínicas e confissões ambíguas, como um homem tentando se absolver de um crime que não admite em voz alta.
— Pensei que fosse mais esperto, Davi. Se fosse, não teria feito aquela denúncia anos atrás... Mas você deve saber — ele deu um gole de vin — aqueles que lutam contra o sistema geralmente acabam... quebrados.
Davi pensava que, à sua frente, só via um covarde de gravata e bigode. Sua paciência havia se esgotado.
— Você não me chamou aqui para falar sobre o meu passado. Onde ele está?
Breno ergueu a taça em um brinde silencioso. — Está falando do Raziel? Ah, pobre coitado. Ele estava metendo o nariz onde não foi chamado. E você está indo pelo mesmo caminho.
— É por isso que me chamou aqui? Para me dar um sermão? — Davi manteve o tom controlado, quase frio.
— Eu te chamei porque você ainda pode escolher o lado certo. Não precisa desaparecer como seu mentor. — Ele encheu a taça novamente. — O desaparecimento dele não foi acidente. Foi um acerto de contas. E agora você herdou o problema.
— Você sabe onde ele está — Davi afirmou, sem perguntar.
— Talvez eu saiba... mas só direi quando você estiver pronto para me entregar aquelas provas e aceitar a nossa... parceria.
A resposta ficou no ar, mas atravessou Davi como uma flecha envenenada. Ele se levantou de forma abrupta, recusando-se a continuar. Breno desfez o sorriso. O olhar vacilou, como se por um segundo o peso do que fazia finalmente o alcançasse. A taça em sua mão tremia levemente, e seus olhos acompanharam Davi até a porta, carregando uma expressão de pesar.
Ele não disse mais nada. Apenas permaneceu sentado, imóvel, como se ainda pudesse escolher outro caminho. Mas quando Davi saiu pela porta da rua, Breno suspirou fundo, fechou os olhos por um instante… e cedeu.
Fez um gesto rápido com a mão sobre a mesa. Os dois homens ao fundo se levantaram; agora já era tarde demais.
Quando Davi saiu, o ar pareceu mais pesado. Então ouviu passos atrás de si. Precisos. A distância se encurtava. Ele acelerou. Os passos acompanharam. Até que—
Um toque nas costas.
Um choque elétrico.
A visão escureceu.
Quando recobrou a consciência, uma mancha amarela esbranquiçada e piscante dançava sobre sua cabeça. Ele estava amarrado a uma cadeira no centro de um depósito. O ar era espesso, uma mistura nauseante de mofo, óleo velho e a ferrugem metálica da porta de correr. A corda áspera cortava seus pulsos, e o frio úmido do chão de concreto subia, plantando um arrepio constante.
Tinha perdido os óculos; o mundo era um borrão de contornos ameaçadores. Nas margens de sua visão, ele captava apenas silhuetas escuras que a luz instável transformava em espectros.
E esse borrão no centro, à sua frente, sussurrou, das sombras:
— Já acordou... que bom.
A voz era melodiosa, maliciosa e conhecida demais.
— N-Nero?!
Das sombras, ele emergiu como um pesadelo que nunca foi embora: calça escura, blusa vinho listrada sob o colete jeans, um pingente metálico no pescoço. O corte na sobrancelha estampava sua personalidade selvagem.
— Eu me pergunto... — sorriu torto — se foi burrice do meu pai... ou só vontade de me dar um presente.
Davi permaneceu em silêncio, músculos tensos, mandíbula travada.
Nero se aproximou, contemplando-o como quem observa uma escultura.
— Ainda tem aquelas cicatrizes?
Davi desviou o rosto, mas Nero já havia visto as marcas na base da mão direita.
— Perfeitas. É importante lembrar quem tanto te amou.
Davi riu seco.
— Amou? Ha... teu cu. Você só me mostrou o tipo de lixo que eu nunca vou querer.
Nero sorriu doce e cruel.
— Pode enganar os outros, mas eu sei. Sei como você fica vulnerável quando alguém chega perto, quando alguém te toca... — estendeu a mão para encostar-lhe o rosto.
— Não encosta em mim!!
O grito saiu firme e ecoou pelo depósito. Mas os olhos vacilaram. Nero gargalhou, encantado.
— Então a chama ainda está aí! Que bom. Achei que Miguelzinho já tinha apagado ela.
O nome cortou o ar como lâmina.
— Não ouse falar dele. — Davi rangeu os dentes.
— Por quê? Ah, já sei. — Ele começou a zombar. — Você gosta dele, acha que ele te ama? Sonha que vai te salvar? Que fofo. Mas ele não sabe quem você é de verdade. Eu sei. Eu vi sua pior parte... e adorei.
— Se tocar nele... — Davi sussurrou, rouco — eu te mato com as minhas próprias mãos.
Nero fez um falso gesto de surpresa, depois caminhou até uma mesa no canto. Papéis espalhados, um notebook ligado às câmeras de segurança. Davi reconheceu a entrada do depósito. O lugar estava sendo vigiado por câmeras e capangas.
— Relaxa. Não quero Miguel. Ainda não. Eu só queria te ver... antes do fim. E te dar um último ato de misericórdia.
— Misericórdia?
— Fica comigo ou… eu vou atrás dele. E de todos os outros. O seu mentor, aquele policial rechonchudo...
O coração de Davi acelerou, mas sua mente permaneceu fria.
— Vocês estão com medo. Por isso Breno me sequestrou. Porque sabem que as provas vão engolir vocês como um tsunami.
— Você se acha, né? — Nero se inclinou, perto de seu ouvido. — E mesmo assim... ainda me vê todas as noites. Ainda sente minha presença quando acorda suando?
Davi sentiu náusea. Toda aquela encenação resumia-se em uma sensação.
— Você me enoja — disse ele, firme. — Pode se enganar, mas não me engan—
O estalo da mão de Nero preencheu o ar. O gosto metálico invadiu a boca de Davi. Ele cuspiu o sangue no chão. Não sorriu de canto. Seu sorriso era seco, desafiador e quase louco, refletindo sua dor emocional que naquele instante se sobrepunha à física.
— Vai precisar de mais que isso pra me calar — ele sibilou, a voz grave e ensanguentada.

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