O ar no galpão pesou instantaneamente. Além das paredes de metal, o mar parecia ter se tornado mais voraz, pronto para engolir qualquer um que vacilasse. Breno permanecia estático, as mãos trêmulas traindo o choque de encarar o monstro que ele mesmo ajudou a criar.
Afinal, tinha escutado cada palavra, as acusações e as confissões que Nero cuspiu sobre si como navalhas afiadas e dentro dele algo, talvez um resto de carinho e arrependimento, começou a se revelar.
— Agora chega, Nero! — sua voz saiu firme, como quem quisesse dar um ponto final na história. — Isso precisa acabar…
Nero se virou lentamente, com os olhos irritados, faiscando como brasas de uma fogueira acesa pelas lembranças de um passado cheio de ressentimentos. Havia um sorriso frio no canto de sua boca, zombeteiro.
— Acabar? — murmurou. — Você acha que tem o direito de encerrar o assunto agora, depois de toda a merda que fez durante anos? Haha… Foi justamente você quem me ensinou a ignorar essa fraqueza. — Ele deu um passo à frente, a luz distante contornando o resto de seu corpo. — Você devia saber melhor do que ninguém quem eu sou.
O silêncio que se instalou naquele velho galpão com cheiro de sal e ferrugem…
Davi, ainda com as mãos presas à cadeira, aproveitou a distração para desatar as amarras. Seus pulsos ardiam, mas ele continuou; os movimentos eram calculados, feitos com cuidado para não ser descoberto. Por um instante, acreditou que conseguiria. Mas, quando percebeu, Nero o observava com um olhar feroz, em silêncio absoluto.
Davi desviou o olhar.
Um clique seco de uma arma ecoou pelo ar.
Nero tirou a arma do colete jeans e apontou para ele com uma expressão assustadora.
— Com você é sempre assim — disse Nero, aproximando-se a cada passo. — Sempre me desafia… E você — apontou a arma para Breno — o arquiteto de tudo, também vai pagar, meu primeiro regente.
Breno ergueu as mãos, tremendo.
— Eu só tentei te dar uma vida boa. Eu te cobrava porque queria que fosse um líder…
Ao ouvir aquilo, Davi lembrou que Nero costumava usar essas mesmas palavras quando eles estavam juntos. A respiração denunciava o medo que tentava esconder, mas ele o superou e murmurou:
— Líder? É assim que você chama alguém que só sabe sequestrar os outros e mandá-los calar a boca?
Nero riu, exibindo um sorriso seco e familiar.
— Você continua corajoso demais pra quem já deveria ter aprendido a lição. — A arma não tremeu um milímetro enquanto ele se aproximava de Davi. — Você sempre teve essa mania irritante. Eu era o que você precisava — disse, com a voz baixa e hipnótica que sempre usava antes de explodir. — E você sabe disso.
Ele inclinou a cabeça, estudando Davi.
— Enquanto eu apodrecia lá dentro, você estava aqui fora… confortável.
Breno apertou os olhos, como se o arrependimento queimasse.
— Nero… você só saiu porque eu intercedi. Você sabe disso. Você não cumpriu nem metade da pena antes de sair.
Nero se virou bruscamente na direção do pai.
— Que diferença faz quem me ajudou ou não? — a mandíbula travou. — Você sempre quis fingir que não sabia com quem estava lidando. Usou seus contatos para evitar manchar a sua reputação. Então não venha bancar o santo. Só fez isso pra que eu virasse a pessoa que você queria que eu fosse!
Breno encolheu a postura num reflexo.
— Eu nunca quis que você… — engoliu em seco — que você se metesse nesse tipo de mundo. Eu esperava mais de você.
— Sim, eu sei. Esperava que eu fosse você! — Nero bradou, cuspindo cada palavra como veneno. — Sempre repetindo que eu tinha que ser “forte”, “frio” e “acima dos outros”. — O sorriso sumiu, dando lugar a uma expressão vazia. — Parabéns, pai. Funcionou.
Davi ainda sentia a dor aguda nos pulsos, mas vociferou:
— Ele te transformou nisso — disse, olhando para Nero e depois para Breno. — E você permitiu isso. — Sua voz não carregava ódio, apenas uma constatação antiga, como suas cicatrizes. — Você me pediu pra confiar em você. Disse que ia mudar… pra logo depois me empurrar contra a parede porque eu não quis te ajudar nos seus crimes.
Nero o encarou com um olhar que misturava fúria com algo bem mais sombrio.
— Você era meu. — A arma subiu um centímetro. — E você teve a audácia de me entregar à polícia como se eu fosse um mero cão.
— Você literalmente roubou, Nero! — rebateu Davi.
O silêncio vibrou pesado. Breno fechou a mão, tentando controlar o tremor.
— Quando a polícia bateu na minha porta, eu… — hesitou, a voz se desfazendo. — Eu pensei que tivesse perdido meu filho. — Seus olhos marejaram. — E, vendo você agora… talvez eu tenha perdido mesmo.
Nero virou o rosto, como se aquela frase tivesse acertado onde nada mais conseguia.
— Você nunca teve um filho — disse, num sussurro duro. — Teve um projeto de si mesmo. Mesmo com luxo, cercado de tudo… eu não tinha escolhas.
— Você está obcecado, não… Perturbado! — disse Breno. — Chegou ao ponto de perseguir o Davi pra descobrir onde Raziel estava escondido.
— Espera, o quê? — Davi arregalou os olhos.
— Isso não tem nada a ver com Raziel — Nero respondeu rápido.
— Você estava me stalkeando?
— Só não gosto que mexam no que é meu, sabe?
Ao ouvir isso, Davi sentiu um refluxo subir pela garganta. Ao longe, Miguel rangeu os dentes, furioso.
Davi inspirou fundo.
— Nero… você não está mais preso. Não precisa agir assim. Pode viver de forma honesta.
A arma vacilou por um único segundo.
Do outro lado do galpão, uma sombra se desprendeu da parede.
Miguel.
O suor escorria pelas têmporas. Ele esperara, mas vê-lo sob a mira daquela arma dissolveu qualquer cálculo.
Não houve pensamento, Miguel avançou pelo escuro.
O impacto foi brutal.
Os corpos colidiram num emaranhado de golpes e grunhidos. Nero reagiu rápido; Miguel compensava a falta de técnica convertendo o peso em impacto. Por um instante, pareceu que a força bruta de Miguel prevaleceria.
Até que Nero girou o corpo e enterrou o punho em seu abdômen.
Miguel desabou, o ar fugindo num chiado doloroso.
— Sempre tem um idiota disposto a morrer por outro — disse Nero, chutando suas costelas. — Acham que coragem substitui poder?!
— Para! — Davi gritou, mas Breno segurou seu ombro.
Irritado de verdade, Nero jogou Miguel ao lado de Davi. Miguel se encolheu, tentando puxar o ar.
Do alto da escada de emergência, Raziel viu o filho cair.
O mundo se estreitou.
Ele tentou descer, mas mãos duras o agarraram. Capangas surgiram, fechando o cerco.
Nero caminhou até o centro do galpão.
— Fui preso porque confiei demais — disse. — Porque escolhi mal em quem acreditar…
Ergueu a arma como um maestro.
— Uma orquestra não pede permissão. Ela obedece. Cada erro tem um preço.
Então veio o som…
Um estouro cortou o ar.
A dor atingiu a arma na mão de Nero que caiu no chão. O segundo tiro atingiu sua perna. Ele caiu com um grito curto.
— Acabou, Nero! — exclamou Wendel, surgindo das sombras.
Os capangas não hesitaram em largar Raziel e ergueram as mãos. Então Raziel correu até Miguel.
Breno se ajoelhou diante do filho. Não havia fúria em seu gesto, apenas rendição.
— Já basta, meu filho — fungou quebrado e logo se virou para o policial em tom lamuriante. — Eu vou testemunhar. Contra ele. Contra mim, se for preciso.
Nero o encarou. Por um breve momento, algo em seu olhar deixou de ser ameaça. Restava apenas a incredulidade de quem perdera o controle da própria música.
Assim, Wendel algemou ambos. Logo depois, cruzou o galpão e soltou Davi.
O ar do galpão parecia mais leve.
Livre, ele não olhou para mais ninguém, foi direto até Miguel, ajudou-o a sentar. Miguel abriu os olhos e, mesmo exausto, conseguiu estender os óculos que guardou no bolso para ele. Davi os segurou com cuidado. Miguel sorriu, um pouco fraco.
Naquele silêncio compartilhado, sem necessidade de palavras, ambos entenderam: Estavam vivos. E isso já era amor.
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