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Rastros de Silêncio

Epílogo (Com censura)

Epílogo (Com censura)

Apr 26, 2026

Era uma manhã de verão, daquelas que chegam cedo demais no apartamento de Davi.

A luz do nascer do sol atravessava a cortina e desenhava linhas douradas pelo quarto, deixando que o dia já estava desperto. Ao ouvir o despertador, Davi abriu os olhos com um suspiro curto já cansado antes mesmo de se levantar. O teto era o mesmo de sempre, mas havia algo diferente no ar. Uma expectativa leve, silenciosa, quase absurda.

Ele suspirou outra vez, achando ridículo sentir aquilo tão cedo, e se sentou na cama, tentando ignorar.

Qual era o motivo da expectativa?

Era um dia especial. Um encontro com o namorado.

No banheiro, a água fria escorreu pelo rosto e pelo pescoço, ajudando a organizar os pensamentos. Vestiu-se sem pressa, como quem tenta disfarçar o próprio nervosismo. Camiseta verde-oliva de mangas curtas e gola em V, bermuda azul-acinzentada, larga e confortável. Calçou os tênis vermelhos de cano baixo, puxou as meias brancas até metade da panturrilha e, por último, as luvas pretas sem dedos.

As luvas sempre por último.

No espelho, parecia pronto para qualquer coisa.

Isso o tranquilizou. Ou quase.

O convite voltou como um eco atrasado enquanto ele pegava a mochila e as chaves.

Lembrou de Miguel falando rápido, empolgado, numa tarde qualquer no escritório. Davi tinha concordado no automático, mais atento ao jeito como ele sorria do que às palavras. Só depois, sozinho, percebeu que não fazia ideia do plano.

E ainda assim não perguntou.

Agora era tarde.

O escritório estava vazio quando ele chegou quieto demais para uma manhã comum. A luz entrava pelas janelas e desenhava sombras longas no chão, como ponteiros silenciosos marcando o tempo.

Miguel apareceu com energia demais para aquele horário.

Usava uma regata bege-amarelada que deixava os braços à mostra, a pele já dourada pelo sol. A bermuda curta, em tom salmão, tinha bolsos laterais e caimento ajustado. Meias pretas e tênis em tons terrosos completavam o conjunto. Forte. Simples. Inteiro naquele instante.

Ele passou a mão pelos cabelos longos e sorriu.

— Cheguei cedo demais.

— Você sempre chega — Davi respondeu.

Só depois percebeu o quanto aquilo era verdade.

Sem perguntar para onde iam, os dois saíram.

Miguel havia alugado um carro. Pela estrada, desceram a serra que se abria diante deles como uma lembrança antiga: curvas suaves, o verde espesso das árvores, o cheiro úmido de terra e vento entrando pelas janelas abertas.

Miguel cantava alguma coisa fora de tom.

Davi observava, rindo de uma palavra errada, de uma nota inexistente, do jeito distraído com que ele dirigia como se o mundo estivesse, finalmente, no lugar certo.

Em certo momento, Miguel silenciou. Não era constrangimento. Era como se quisesse guardar aquele instante dentro de si.

— Você confia em mim?

Davi virou o rosto, sustentando o olhar.

— Mais do que deveria.

O carro fez a última curva.

O cheiro veio primeiro: sal, maresia, sol quente em areia. Depois, o som constante das ondas.

Então a praia se abriu diante deles.

Assim que pararam, Miguel largou os tênis na areia e correu em direção ao mar, rindo alto quando a água fria bateu nas pernas. O vento levantava os fios do cabelo dele, e o brilho nos olhos parecia refletir o céu inteiro.

Davi ficou parado por um instante. Observou o ritmo das ondas, calculou a temperatura imaginada, sentiu o peso do próprio corpo contra o chão quente.

Miguel virou-se.

— Vai ficar aí filosofando ou vem?

Davi tirou as luvas com cuidado e as guardou na mochila.

Entrou devagar. Mas logo uma onda veio e o molhou inteiro.

A água gelada arrancou um suspiro dele, seguido pela gargalhada de Miguel.

Riram juntos. Sem motivo. Só porque sim.

O dia passou num piscar de olhos: areia grudada na pele, sal secando nos lábios, conversas leves, ombros que se tocavam sem querer. Pequenas coisas. Bobas. Perfeitas.

*  *  *

À noite, escolheram um hotel pequeno, quase esquecido pelo litoral.

O tilintar do sino sobre a porta soou quando entraram. A recepção era pequena, iluminada por uma luz amarelada que deixava tudo com aparência de fim de tarde permanente. O ar cheirava a madeira antiga e produto de limpeza. Atrás do balcão, um ventilador girava devagar, fazendo os papéis vibrarem.

Davi parou um passo atrás de Miguel.

Miguel apoiou os cotovelos no balcão com naturalidade demais para quem claramente não fazia ideia de como agir num check-in.

— Boa noite. A gente precisa de um quarto.

A recepcionista ergueu os olhos devagar. Primeiro olhou para Miguel. Depois para Davi. Depois para os dois juntos.

— Nome e documentos.

— Miguel Fernandes. Aqui.

Enquanto ela digitava, o som das teclas ecoava no pequeno espaço.

— Quarto de casal?

Miguel assentiu rápido demais.

— Isso.

Davi desviou o olhar para o chaveiro pendurado na parede, sentindo o calor subir pelo rosto.

A mulher colocou a chave sobre o balcão.

— Café da manhã até as sete. A senha do Wi-Fi está na plaquinha do quarto. Check-out ao meio-dia.

— Só isso? — perguntou Miguel, pegando a chave.

— …sim?

— Ah. Tá. Perfeito.

No corredor estreito, o carpete macio abafava os passos. O som distante do mar parecia acompanhar cada movimento.

Quando chegaram à porta, Miguel parou.

Girou a chave.

Olhou para Davi.

Por um segundo inteiro, não abriu.

Era a consciência do que aquilo significava: a primeira noite juntos num mesmo quarto, numa mesma cama, desde que começaram a namorar.

Davi percebeu a hesitação. Dessa vez, não provocou.

A porta se abriu com um clique baixo.

O quarto tinha cheiro de sal e lençóis recém-lavados. A janela aberta deixava entrar o sussurro constante do mar.

— Nossa… isso aqui é menor do que eu imaginava.

— Hm.

De repente, outro clique. A porta sendo trancada.

Um arrepio correu pela nuca de Davi.

Mal haviam fechado a porta e Miguel já estava se aproximando. Veio sem anúncio, sem pressa, mas inevitável.

— Eu pensei nisso mais vezes do que devia — ele disse baixo.

— Eu também.

O coração de Davi acelerou quando Miguel chegou perto.

“Já faz quanto tempo que eu fiz isso com alguém? Será que ainda me lembro? Arg!!” Davi divagou em sua mente.

O toque veio primeiro nos cabelos, depois na nuca, cuidadoso, como um pedido de permissão.

Davi respondeu erguendo o rosto.

Miguel se inclinou e o beijou.

O beijo foi lento, quente, cheio de ternura. O gosto salgado ainda estava na pele deles, misturado ao cheiro de mar e ao calor acumulado do dia. As mãos de Miguel deslizaram até a cintura dele, firmes, e Davi sentiu as pernas vacilarem.

Quando os lábios se separaram, Miguel pegou a mão dele e beijou suas cicatrizes uma a uma, sem dizer nada. A respiração de Davi ficou mais funda, irregular, e o ar parecia mais denso ao redor.

Havia desejo no olhar de Miguel, mas também algo contido, reverente.

Eles se moveram até a cama como se fossem puxados pela mesma maré.

Quando Davi se deitou, Miguel puxou sua camisa com um sorriso curto. Davi ajudou, deslizando o tecido para fora, revelando o próprio corpo enquanto o calor da pele dele encontrava o ar fresco do quarto.

Os lençóis estavam frios contra as costas, contrastando com o calor das mãos de Miguel explorando devagar: o contorno das orelhas, o pescoço, o peito. Cada toque fazia Davi estremecer. Um som baixo escapou da garganta dele sem permissão.

O som das respirações se misturava ao mar lá fora. O cheiro de sal, pele e tecido aquecido preenchia o espaço.

Miguel o trouxe mais perto pelos quadris, guiando-o com firmeza e cuidado. O toque era intenso, mas atento, como se memorizasse cada reação. Davi arfou, não por surpresa, mas pela força da sensação que se espalhava em ondas pelo corpo.

Quando finalmente se uniram, o mundo pareceu caber só naquele colchão.

O colchão cedeu sob o peso dos dois. Davi riu baixo, nervoso, e o som foi engolido por outro beijo, profundo e quente. Os dedos dele se prenderam nas costas de Miguel enquanto o corpo tremia, não de medo, mas de entrega escolhida.

Quando tudo parecia prestes a transbordar, Miguel desacelerou, a testa encostada na dele.

Davi assentiu.

O clímax veio como maré alta, inevitável, arrastando tudo. Davi segurou o rosto suado dele e o beijou de novo, e então o ápice os atravessou juntos.

Depois, o silêncio.

Miguel o abraçou, e o corpo dele parecia um abrigo. O calor, a respiração lenta, o som distante das ondas, tudo se misturava numa tranquilidade quase irreal.

Isso bastou.

*  *  *

A manhã seguinte chegou silenciosa.

Davi acordou primeiro. O quarto estava banhado por luz suave. Ao lado dele, Miguel dormia com o rosto tranquilo, uma mão solta entre os lençóis.

Foi então que Davi percebeu.

Sua mão direita repousava sobre o peito.

Sem luvas.

As cicatrizes estavam visíveis. Claras. Incontestáveis.

E ali, firme, simples… uma aliança.

O ar pareceu faltar por um instante.

Miguel se mexeu, acordando devagar, e seguiu o olhar dele.

— É só um anel de compromisso — disse, com a voz rouca de sono. — Mas é sua escolha.

Davi não escondeu a mão.

Entrelaçou os dedos nos dele.

— E eu escolho. Todo dia.

Miguel o observou em silêncio.

— Você tem certeza?

Davi respirou fundo.

— Tenho medo. Mas tenho certeza.

Algo se assentou dentro dele. Não era posse. Não era impulso. Era uma decisão.

Eles não anunciaram nada.

Não precisaram.

O acordo estava feito na luz da manhã, na mão descoberta, na escolha silenciosamente repetida.

Fim

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